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    Vendem-se planetas anões

    Depois que o risco maior foi afastado -- o de que as crianças do mundo todo tivessem de decorar o nome de dezenas de astros celestes, caso o seleto clube dos planetas flexibilizasse as regras de admissão para permitir a manutenção de Plutão -- uma pergunta permaneceu: o que fazer dos planetas anões? Um astrônomo americano tem a resposta na ponta da língua: vendê-los.

    Para quem não se lembra, a polêmica fervilhou em agosto último, quando a União Astronômica Internacional (IAU), em reunião, primeiro propôs que o número de planetas subisse para 12, para depois votar e aprovar a proposta mais razoável de rebaixar Plutão ao segundo escalão e deixar apenas oito planetas no rol dos astros mais importantes ao redor do Sol.

    Isso resolveu o problema dos livros didáticos -- eles agora precisam ser atualizados apenas mais uma vez, excluindo Plutão, e depois, salvo alguma descoberta muito inesperada, permanecerão para todo o sempre com oito planetas.

    Em compensação, deve crescer muito a categoria recém-criada dos planetas anões -- objetos que quase chegaram lá, mas não "limparam" sua região a ponto de serem considerados planetas. Hoje, oficialmente, são três os membros reconhecidos dessa categoria: Ceres (que foi "promovido" com a mudança; antes disso ele era apenas um asteróide), Plutão (o grande perdedor) e Éris (objeto que colocou lenha na fogueira no ano passado por ser maior que Plutão).

    Claro, existem outros já descobertos que devem ser incorporados ao grupo dos planetas anões. Entre eles estão Sedna e Quaoar, fruto do mesmo grupo de pesquisa que achou o Éris. Muitos desses, entretanto, ainda não têm nome oficial, e outros tantos (possivelmente centenas) sequer foram descobertos.

    Moral da história: ainda há muitos planetas anões sem nome lá fora.

    Ceres, Plutão e Éris ganharam nomes saídos da mitologia greco-romana, seguindo a tradição. O problema é que muitos dos nomes já estão tomados por asteróides. Estamos ficando sem deuses para emprestar seu nome aos planetas anões. Evidências desse problema são Quaoar e Sedna, que tiveram seus nomes tirados de mitologias desligadas da tradição greco-romana pela simples falta de deuses.

    Uma solução seria seguir essa estratégia e continuar procurando deuses "alternativos" para batizar os planetas anões. Outra, mais audaciosa, vem do astrônomo Stephen Maran, da Sociedade Astronômica Americana: ele propõe que a IAU venda os nomes dos planetas anões!

    "Eu não sei se eles vão considerar isso, porque a IAU é tradicionalmente uma organização muito formal e conservadora", disse ele ao Mensageiro Sideral. "Entretanto, eles mostraram um novo interesse em divulgação educacional e terão de achar uma fonte de financiamento para isso. Dar nomes aos planetas anões pode se encaixar."

    Maran não tem a menor idéia de quanto valeria ter seu nome num planeta anão. "Claramente seria preciso fazer uma análise de mercado. Quando você tem uma commodity, você quer descobrir por quanto pode vendê-la. Já que não há competição -- só a IAU pode dar nomes oficiais a corpos celestes --, o preço não dependeria de quanto outros cobrariam, mas do que você pode esperar obter. Há umas poucas pessoas que gastam milhões de dólares para pegar uma carona até a Estação Espacial Internacional, então deve haver milhares de pessoas que gastariam umas poucas centenas de dólares para serem imortalizadas no Sistema Solar Exterior ou para batizar um planeta anão com o nome de uma paixão ou um membro da família."

    Segundo o astrônomo, isso não seria muito diferente de outros negócios realizados hoje. "Nos Estados Unidos, corporações gastam grandes somas de dinheiro para ter estádios de beisebol, futebol e basquete com seus nomes. Então elas certamente pagariam, digamos, 10 mil dólares para ter um objeto celeste com seu nome, que eles poderiam usar em sua propaganda institucional."

    E quanto o astrônomo pagaria pelo planeta Maran? "Eu sigo Groucho Marx, que uma vez disse que nunca entraria para um clube que o aceitasse como membro. Então, se um planeta pudesse receber meu nome, ele provavelmente seria barato demais para ser de interesse", diz. "Por outro lado, talvez eu pudesse comprar os direitos de batismo de um planeta anão e então revendê-lo no E-bay para obter um belo lucro."

    Não é à toa que Maran não está tão interessado -- ele já teve um asteróide, o "Planeta Menor 9768", batizado em sua homenagem, como Stephenmaran. "Não me custou nada e não vale muito, exceto pelos 'direitos de contar vantagem'."

    Depois de ouvir a idéia amalucada de Maran (que inevitavelmente levam a imaginar as futuras missões espaciais ao planeta Coca-Cola, com escala no planeta Gates), o Mensageiro Sideral conversou com um veterano em assuntos da IAU, o britânico Brian Marsden. Ele considera a proposta impraticável. "Vender os nomes pode ter mérito, mas a IAU é totalmente oposta a comercializações desse tipo."

    Veremos quando os astrônomos estiverem batizando seu centésimo planeta anão...

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Mensageiro Sideral

O Universo, com seus 13,7 bilhões de anos e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas, tem infindáveis histórias a serem contadas. Aqui exploraremos uma pequena amostra. Meu nome é Salvador Nogueira. Sou jornalista científico desde 2000, editor de Ciência e Saúde do G1 e autor dos livros "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço" e "Conexão Wright-Santos-Dumont: A Verdadeira História da Invenção do Avião".






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