Santos-Dumont, explorador espacial
Neste ano do centenário dos primeiros vôos do 14bis, estamos ouvindo falar um bocado de Alberto Santos-Dumont. Muito se diz do sucesso extraordinário do inventor ao demonstrar que os aeroplanos podiam ter sucesso, numa época em que os irmãos Wright escondiam suas máquinas de tudo e de todos. Menos destaque se dá ao que realmente levou o brasileiro à fama, ainda no final do século XIX: seu trabalho rumo à dirigibilidade dos balões. Mas o que ninguém fala mesmo é da paixão que Alberto tinha pelo espaço sideral. Bem, o
Mensageiro Sideral vai corrigir isso agora. (Assim não precisaremos esperar pela desculpa dos 200 anos da invenção do avião para falar do assunto.)
O jovem Santos-Dumont foi um grande apaixonado pela fronteira espacial, mesmo numa época em que ninguém tido como "cientista sério" acreditava na possibilidade de vôo além da atmosfera (e, para ser franco, nem vôo na atmosfera). Um de seus livros favoritos na adolescência foi "Da Terra à Lua", do escritor francês Júlio Verne. Publicado em 1865, com uma continuação lançada em 1870, o livro é o que mais me impressiona de toda a obra do romancista que é tido como "pai da ficção científica moderna", por sua incrível similaridade com o Projeto Apollo, conduzido cem anos depois.
Alberto levava a sério os livros de Verne. Tanto que foram as narrativas do francês, entre outras obras, serviram como faíscas para levar o brasileiro a imaginar um céu povoado por máquinas voadoras de todos os tipos. ("A Volta ao Mundo em 80 Dias", livro que narra uma longa viagem de balão ao redor do globo, também é do famoso escritor e também foi lida por Santos-Dumont.)
Na época em que estava na ativa como aeronauta, Alberto não teve muita chance de exercer sua paixão pela astronomia amadora. Mas tudo mudou depois que ele decidiu se aposentar, em 1910, e levar uma vida mais tranqüila. Não que fosse seu desejo, mas Santos-Dumont foi diagnosticado com uma doença séria, esclerose múltipla, e não teve opção senão parar de voar.
Isso permitiu que ele iniciasse muitas viagens espaciais sem sair do chão, apenas observando os astros. Ao mudar-se para o litoral francês, abandonando o furor de Paris, Alberto passava as noites perscrutando os céus com um telescópio alemão Zeiss. Nada contra os fabricantes, mas os vizinhos franceses não gostaram nem um pouco de ver aquele estrangeiro espiando as redondezas com um telescópio alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Resultado: em 1914, a polícia bate à porta do inventor para investigá-lo -- ninguém ali se lembrava de tudo que ele havia feito pela França pouco mais de uma década atrás, quando chegou a oferecer seus dirigíveis ao exército da república em caso de conflito com qualquer nação que não fosse das Américas.
Os tiras entraram, reviraram tudo e não encontraram nada suspeito. Mas Santos-Dumont, já deprimido por sua saúde frágil, ficou revoltado. Como resultado, acabou pondo fogo em muitos dos documentos que possuía. (Um desserviço à história, mas atitude totalmente compreensível.)
O fato é que, apesar de estar a cada dia mais consumido por sua moléstia, Santos-Dumont nunca esqueceu o espaço. Tanto que, em 1928, ele criou um invento que chamou de "conversor marciano". Era uma mochila motorizada que o sujeito deveria colocar nas costas para aliviar o seu próprio peso. O aparelho tinha serventia na escalada de montanhas para a prática do ski, numa época em que os teleféricos ainda não estavam por lá. E o nome vem justamente da astronomia: Santos-Dumont acreditava que o usuário podia experimentar uma sensação de gravidade menor que a normal, talvez mais próxima da marciana. (Como Marte tem menos massa que a Terra, sua gravidade é menor. Mudar-se para o planeta vermelho, portanto, pode ser uma boa opção se você estiver com uns quilinhos a mais e quiser evitar um regime pelo menos até as festas de fim de ano.)
Deprimido por sua doença e frustrado com o uso dos aviões para a prática da guerra, Santos-Dumont se suicidou em 1932. Com isso, não teve tempo de ver as maravilhas que o futuro guardava para a exploração espacial. Uma pena.
Ainda assim, seu último destino não tinha como ser outro, que não as estrelas. Em 1976, a União Astronômica Internacional batizou uma das crateras da Lua com o nome de Santos-Dumont. Trata-se de um buraco de oito quilômetros de diâmetro escavado por um impacto de asteróide numa época remota.
O local não fica muito longe da região de pouso da missão da Apollo 15, quarta missão americana a levar astronautas à Lua, em 1971, e primeira a transportar um jipe para travessias de longa distância pela superfície. A tripulação não chegou a visitar a cratera Santos-Dumont, mas uma coisa é certa: o mesmo espírito corajoso, audaz e explorador que tinha o brasileiro estava com eles lá.