Um réquiem para a Mars Global Surveyor
A Nasa ainda está em estado de negação: diz que continuará tentando retomar o contato com a Mars Global Surveyor. Bem, essa é a obrigação deles, então não me surpreende que digam isso. Mas, vamos aceitar os fatos: a sonda se foi.
Esse é sempre um processo sofrido, admitir que uma espaçonave foi perdida. Normalmente, ele ocorre em situações ainda menos confortáveis, ou seja, antes que a missão científica da sonda tenha começado. Marte, sobretudo, é um planeta conhecido por dragar naves espaciais incautas. Se forem russas, então, o planeta parece ter um apetite especial por elas. Mas uma navezinha ianque também não cai mal.
A própria Mars Global Surveyor, ao chegar à órbita marciana, foi a superação de um trauma: quatro anos antes, em 1993, a Nasa perdeu a Mars Observer, pouco depois das manobras de tentativa de colocação da sonda em órbita. Foi uma perda de mais de US$ 1 bilhão, que levou a agência espacial americana a repensar totalmente a estrutura de seu programa de exploração de Marte.
O resultado foi a aplicação do conceito "Faster-Better-Cheaper" ("mais rápido-melhor-mais barato"), instituído pelo administrador Daniel Goldin, que havia assumido o comando da agência apenas um ano antes. A idéia era simples: em vez de gastar dez anos investindo US$ 1 bilhão em uma sonda, por que não gastar dois anos investindo US$ 200 milhões em uma sonda? Após dez anos, em vez de uma sonda por US$ 1 bilhão, você teria cinco sondas de US$ 200 milhões, e o ciclo mais rápido de desenvolvimento de cada sonda permitiria incorporar sempre tecnologias mais modernas. (Normalmente, ao desenvolver uma espaçonave, chega um momento em que você precisa "congelar" o design, ou seja, decidir o que você quer de fato e começar a construir. Se você planeja uma missão de US$ 1 bilhão com lançamento para daqui a dez anos, quando chega a hora de voar sua sonda tem tecnologia de dez anos atrás. Se o ciclo é de quatro, cinco anos, a "deriva tecnológica" é bem menor.)
Em linhas gerais, o conceito é bom. E a Mars Global Surveyor foi fruto direto dele. A sonda em si custou uns US$ 220 milhões, e o custo de manutenção anual das operações girou em torno de US$ 20 milhões. Desnecessário dizer que os resultados científicos foram extraordinários.
Marte é um planeta dinâmico -- coisas acontecem lá. Tempestades de areia globais varrem aquele mundo árido de tempos em tempos, as estações do ano se sucedem mais ou menos como na Terra, a atmosfera interage com o solo a todo momento e, vez por outra, água líquida represada no subsolo se descongela, emerge explosivamente e molha a superfície seca daquele mundo, para logo borbulhar efusivamente como gás. (Essa última novidade, inclusive, foi fruto direto das observações da boa e velha MGS.)
Para acompanhar todas essas transformações, não basta ter uma sonda danada de boa -- coisa que a MGS sempre foi. Era preciso ter uma sonda
durável -- coisa que ninguém sabia se a MGS ia ser ou não.
Essa é a natureza ingrata de mandar coisas para o espaço -- você faz o possível e o impossível para que tudo dê certo, mas às vezes um detalhe te coloca fora do jogo.
Em compensação, as recompensas científicas de uma missão bem-sucedida não têm preço. Com seu desempenho acima de qualquer suspeita, a Mars Global Surveyor não só pagou o que foi investido nela, mas segurou a onda de suas irmãs menos favorecidas (as sondas Mars Polar Lander e Mars Climate Orbiter, que foram longe demais no "faster-better-cheaper" e fracassaram na chegada ao planeta vermelho, em 1999), e se tornou a espaçonave mais duradoura já enviada para Marte.
O que é mais incrível, ela
melhorou seu desempenho ao longo da missão! Com atualizações de software periódicas e formas mais inteligentes de processar os dados brutos, a MGS viu coisas que supostamente não estava equipada para ver, como sinais dos Mars Exploration Rovers, Spirit e Opportunity, no solo marciano.
Foram dez longos anos no espaço. E, como diz o ditado, todas as coisas boas um dia chegam ao fim. Felizmente, a Mars Global Surveyor não deixa a comunidade espacial no vácuo. Não só tivemos esses dias a chegada de uma outra sonda a Marte, esta programada de antemão para durar mais dez anos (digam todos, "bem-vinda, Mars Reconnaissance Orbiter!"), como também temos na bagagem todo o aprendizado científico, gerencial e de engenharia propiciado pela missão que agora chega a seu fim.
Ou seja: pelo menos no mundo das sondas espaciais, a reencarnação é um fato -- na forma das lições aprendidas entre uma missão e outra. A MGS foi para o outro lado, mas, de algum modo, continua conosco.