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Mensageiro Sideral

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    Marte e esses intermitentes marcianos

    Novos resultados obtidos com a sonda velha de guerra Mars Global Surveyor -- que segue sumida e que o Mensageiro Sideral já enterrou, com toda a pompa, na última coluna -- reavivaram uma velha polêmica: existe vida em Marte?

    Em seu último feito, a MGS mostrou que, ao longo de uns poucos anos, foi possível ver possíveis cursos de água que antes não estavam lá na encosta de crateras -- sugerindo que, ainda hoje, água líquida flui pela superfície marciana.

    Para os cientistas, a caça por vida extraterrestre sempre começa pela caça à água -- trata-se da única substância conhecida que, em seu estado líquido, permite a ocorrência das reações químicas envolvidas no metabolismo dos seres vivos terrestres. Se existem formas de vida que metabolizam sem água, certamente elas não se parecem nada com as da Terra. E como as de cá são as únicas que conhecemos, a única opção que nos resta para guiar a busca por alienígenas é apostar que eles sejam, ao menos bioquimicamente, parecidos com a gente. (E, quando eu digo a gente, estou falando de todo mundo -- incluindo pessoas, cachorros, amebas e as melhores amigas do Dr. Bactéria.)

    Agora, quem acha que essas noções são sofisticadas novidades do nascente campo da astrobiologia (ciência que procura entender como a vida surge e progride no Universo), fique sabendo que esse atrelamento água-vida tem pelo menos uns 150 anos. E as coisas começaram a esquentar mesmo em 1877, quando um astrônomo italiano, chamado Giovanni Schiaparelli, viu, com seu telescópio, alguns riscos na superfície marciana, que ele batizou de canali.

    O bom e velho Schiapa foi bem cauteloso quanto às interpretações possíveis desses riscos, mas um empolgado milionário americano surtou com o possível significado desses traços. Seu nome era Percival Lowell.

    Apaixonado pela astronomia e um ricaço de mão cheia, Lowell basicamente construiu um observatório inteiro para observar Marte e prosseguir com os estudos do italiano. E menos de um ano depois de começar a observar o planeta vermelho, em 1895, o americano já tinha resolvido a charada: os traços eram canais artificiais construídos por uma civilização moribunda, tentando loucamente distribuir a pouca água dos pólos para as regiões equatoriais do planeta, enquanto Marte caminhava para se tornar um deserto inabitável. Bem-vindo ao mundo dos homenzinhos verdes.

    Mais afeito à imprensa do que ao bom senso, Lowell espalhou essa visão aos quatro cantos do mundo -- entre os não-especialistas, era consenso que Marte possuía uma civilização agonizante. O "New York Times" chegou a publicar reportagens sobre obras de duplicação de canais marcianos observadas pelo astrônomo falastrão, e Orson Welles, em 1938, apavorou os Estados Unidos ao simular numa transmissão de rádio a invasão da Terra pelos marcianos.

    Entre os cientistas, entretanto, a moda não pegou -- já no início do século XX muitos deles demonstravam que os argumentos de Lowell não resistiam ao escrutínio e que Marte estava longe de possuir as condições para abrigar uma civilização. O problema é que as refutações eram quase tão chutadas quanto as proposições -- contando somente com observações precárias por telescópios, era difícil decidir quem tinha razão. Tanto que até os anos 1950 a Força Aérea americana tinha mapas de Marte que mostravam os canais mapeados por Lowell e seus seguidores.

    Somente quando as primeiras espaçonaves começaram a tirar fotos do planeta vermelho de perto é que ficou confirmado que os canais de Lowell e seus marcianos favoritos eram apenas ilusões de óptica. As primeiras imagens obtidas de Marte por sondas, em 1965, mostraram um mundo cheio de crateras e aparentemente morto -- tão morto quanto a Lua. Era o primeiro balde de água fria -- congelada, melhor dizendo -- sobre a perspectiva de encontrar vida naquele mundo.

    Em compensação, em 1971, a primeira sonda a orbitar Marte, a americana Mariner 9, revelou o que pareciam ser leitos secos de rios. Começava então a busca pela revelação do passado marciano -- um passado que parecia ter sido muito mais "molhado" que sua secura atual.

    Animados pelos resultados da Mariner 9, os americanos partiram com tudo para Marte em 1975, quando despacharam as ambiciosas missões Viking. Elas eram compostas por duas espaçonaves orbitais e duas sondas de pouso, e a idéia, sem rodeios, era procurar vida no planeta vermelho. As sondas foram ao solo de Marte, pegaram amostras de solo e as misturaram a um caldo orgânico altamente nutritivo -- a idéia era que, se as bactérias marcianas existissem, elas comeriam aquela deliciosa iguaria e seu metabolismo poderia ser detectado pela sonda.

    Até hoje o criador do experimento diz que vida microbiana foi detectada pelas Vikings em Marte -- mas só ele. Todos os demais envolvidos com a missão acreditam que os resultados produzidos -- o caldo nutritivo de fato foi consumido -- ocorreram porque o solo marciano tem uma composição que naturalmente corrói moléculas orgânicas. Para eles, a reação obtida pelas Vikings era somente química.

    Quanto aos orbitadores da missão, também tiveram sua participação na criação do mito dos homenzinhos verdes. É da Viking 1 a famosa imagem da "face de Marte", que, mais tarde ficaria comprovado, era apenas resultado de um jogo de luz e sombras numa montanha marciana que tornava seus contornos ilusoriamente semelhantes a um rosto humano.

    Claro, até hoje tem quem diga que aquele é um artefato criado por uma civilização marciana perdida. Mas isso é tão crível quanto os canais de Lowell, que remontam ao século XIX.

    Após as Vikings, coube a um pedregulho achado na Antártida restaurar o otimismo sobre a possibilidade de encontrarmos vida em Marte. Tratava-se de um meteorito encontrado em 1984 e analisado em detalhe pela Nasa quase 12 anos depois. Ao libertarem bolhas de gás presas no interior da rocha, os cientistas descobriram que a composição era idêntica à da atmosfera marciana -- aquela era uma pedra que tinha vindo de Marte, após ser ejetada para o espaço por um impacto de algum outro objeto celeste com o planeta vermelho.

    Mas o mais interessante é que a tal pedra, denominada ALH 84001, era muito velha, com idade estimada em 4,5 bilhões de anos, e parecia ter alguns traços que se assemelham muito aos deixados por bactérias em rochas aqui na Terra. Poderia esse ser o sinal tão esperado de que a vida floresceu em Marte, ao menos num passado remoto?

    Para os cientistas envolvidos nos primeiros estudos, essa era (e continua sendo) a conclusão inescapável. Para outros tantos que tiveram a oportunidade de estudar a rocha desde então, forças não-biológicas poderiam explicar os traços ali encontrados.

    Moral da história: ninguém sabe realmente o que os sinais vistos no ALH 84001 querem dizer. Pode ser vida pregressa em Marte. Pode não ser.

    Com essa polêmica toda, a Nasa concluiu que não ia conseguir matar a charada tentando responder diretamente à pergunta "existe vida em Marte?". Em vez disso, a agência decidiu seguir o velho mantra dos astrobiólogos e começar pelo começo -- localizar a água do planeta vermelho.

    Ao que parece, uma boa parte do reservatório marciano de água foi perdida para o espaço, conforme o planeta evoluiu e ficou com a atmosfera mais rarefeita. Entretanto, uma quantidade significativa ficou represada no subsolo, como gelo. E, ocasionalmente, essa água parece vir à superfície em forma líquida, embora não dure muito por lá. A pressão atmosférica e as baixas temperaturas de Marte fazem com que o gelo tenda a se converter direto em gás, sem passar pelo estado líquido, o que torna possíveis erupções de água líquida eventos raros e muito rápidos.

    E é nesse ponto em que estamos hoje. Sabemos que Marte teve um passado molhado e que, vez por outra, água aparece na superfície para sumir logo em seguida. Se água e compostos de carbono são tudo que a natureza precisa para produzir vida, não é improvável que ela tenha surgido no planeta vermelho em tempos remotos. Agora, ela ter sobrevivido ao ressecamento marciano são outros quinhentos.

    Talvez uma pista boa esteja no ar marciano. Muitas bactérias são famosas, na Terra, por sua produção de metano -- um gás que é instável e acaba se desfazendo ao longo de muitos anos na atmosfera. Recentemente, a sonda européia Mars Express encontrou no ar marciano algumas pequenas concentrações de metano. Como esse gás não dura muito, deve haver alguma fonte injetando-o constantemente na atmosfera. Poderia ser o metabolismo de bactérias? Sim. Poderia ser atividade geológica? Sim.

    No fundo, no fundo, a impressão que dá é a de que Marte tem toda a probabilidade de abrigar (ou ter abrigado) pelo menos um punhado de micróbios. Mas também fica a impressão de que sempre é possível explicar os potenciais sinais desses seres vivos usando argumentos não-biológicos, o que deixa a coisa no ar.

    Resumindo: ninguém sabe.

    A dúvida provavelmente só vai se resolver quando conseguirmos trazer amostras de Marte ou enviarmos astronautas até lá. Enquanto isso, um punhado de missões robóticas continuará trazendo mais evidências de que o planeta vermelho pode ser um abrigo para a vida. Ou não.

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O Universo, com seus 13,7 bilhões de anos e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas, tem infindáveis histórias a serem contadas. Aqui exploraremos uma pequena amostra. Meu nome é Salvador Nogueira. Sou jornalista científico desde 2000, editor de Ciência e Saúde do G1 e autor dos livros "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço" e "Conexão Wright-Santos-Dumont: A Verdadeira História da Invenção do Avião".






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