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Como já virou uma tradição (sim, meu caro leitor, isso já ocorreu antes, há um ano, numa cibergaláxia muito distante), o Mensageiro Sideral traz em sua última aparição do ano uma recapitulação rápida do que de mais emocionante ocorreu além do pálido ponto azul em 2006.
No dia 19 de janeiro, partiu da Terra uma espaçonave não-tripulada que deve, em algumas décadas, se tornar o objeto mais afastado do Sistema Solar já enviado ao espaço pelo homem. A solitária sonda é a New Horizons, que, antes de se perder no espaço interestelar, deve passar correndo por Plutão e suas luas -- a primeira visita de uma sonda a esse corpo distante do nosso sistema planetário. Nunca uma espaçonave foi lançada com tamanha aceleração. Ele cobrirá os bilhões de quilômetros que separam as órbitas da Terra e de Plutão em menos de dez anos (o encontro está marcado para julho de 2015). Uma medida da pressa é o tempo que a nave levou para passar a órbita de Marte: dois meses e meio. Normalmente, uma sonda a caminho do planeta vermelho faz o percurso em oito meses! E a boa notícia é que a New Horizons já começará a dar frutos no início do ano que vem, ao passar de raspão por Júpiter. Além de enviar imagens espetaculares do planeta gigante, ela ganhará dele um empurrão gravitacional que a colocará em ritmo ainda mais acelerado, a caminho da borda do Sistema Solar. Haja pressa!
Em 11 de abril, a sonda européia Venus Express conseguiu entrar em uma órbita polar ao redor de Vênus, o planeta vizinho mais próximo da Terra. Já faz mais de dez anos desde que uma sonda passou por aquele mundo para ficar -- a última foi a americana Magellan (versão inglesa tosca para "Magalhães", numa homenagem ao navegador português Fernão de Magalhães), que trabalhou por lá entre 1990 e 1994. Desde então, Vênus andou meio largado, a despeito de ser um planeta que merece toda a nossa atenção, por ser tão parecido com a Terra (tem o mesmo tamanho e é o que tem a distância do Sol mais próxima da nossa) e ao mesmo tempo tão diferente (ele é vítima de um efeito estufa avassalador, com temperaturas que atingem os 500 graus Celsius na superfície, e gira tão devagar que um dia leva mais que um ano para passar). Devidamente instalada ao redor de Vênus, a Venus Express (que é irmã-gêmea da Mars Express, em operação no planeta vermelho) já está dando muitas alegrias aos pesquisadores europeus -- e esse é só o começo de uma missão que está programada para durar dois dias venusianos (um ano e meio da Terra).
Em 10 de março, o sempre popular planeta Marte recebeu mais uma visitante orbital -- a sonda americana Mars Reconnaissance Orbiter. A espaçonave veio em boa hora. Foi só ela se estabelecer em sua órbita de pesquisa para que a velha-de-guerra Mars Global Surveyor, também americana, pifasse de vez. A despeito da perda, a chegada da MRO deve resultar num salto de qualidade nas pesquisas marcianas. Pelo pouco que já fez, já deu para perceber que a nova sonda não está lá para brincadeiras. Com seus "olhos de lince", ela já visualizou quase todas as naves que pousaram com sucesso em Marte, desde as Vikings até os jipes robóticos Spirit e Opportunity (ficou faltando só a Mars Pathfinder, com seu simpático jipe Sojourner). Mas o que eu estou mesmo querendo ver é as naves que não pousaram com sucesso. A MRO deve revelar finalmente o que deu errado com sondas como a Mars Polar Lander (americana) e a Beagle-2 (européia), para que elas fracassassem em sua missão após atravessar a traiçoeira atmosfera marciana.
Quando o presidente americano George W. Bush apresentou sua "Visão para Exploração Espacial", em janeiro de 2004, ele estabeleceu que a Nasa deveria voltar a fazer excursões tripuladas à Lua até 2020. Na época, não ficou claro como isso ia acontecer. Mas em 2006 as coisas começaram a entrar em foco. Após um longo processo de seleção, a Nasa definiu a empresa que construirá as novas naves lunares (quem faturou foi a Lockheed Martin) e ao mesmo tempo estabeleceu planos gerais para a arquitetura de exploração lunar. Ficou decidido que a agência espacial americana perseguiria o estabelecimento de uma base tripulada num dos pólos lunares (o que implica múltiplos pousos num mesmo local), fugindo da estratégia usada durante o programa Apollo, que, nos anos 1960 e 1970, realizou seis alunissagens com astronautas, cada uma num lugar diferente. Ainda há muito a ser definido (e até 2020 há tempo de sobra para isso), mas é sempre bom ver o programa espacial americano caminhando numa direção inspiradora e positiva para o futuro da ocupação humana do Sistema Solar. E, já que estamos falando da Lua, vale um registro a conclusão bem-sucedida da missão européia SMART-1, que passou um bom tempo orbitando o satélite natural terrestre antes de se esborrachar no solo lunar. Ela foi a precursora de uma verdadeira flotilha de espaçonaves não-tripuladas que deve aportar nos próximos anos nas imediações lunares, reacendendo o interesse científico por esse mundo fascinante e majoritariamente inexplorado.
O ano de 2006 marcou a volta definitiva dos ônibus espaciais à ativa. Três missões foram realizadas, duas pelo Discovery e uma pelo Atlantis: STS-121, STS-115 e STS-116. A primeira foi o segundo e último vôo de teste das naves, com o objetivo de testar os novos procedimentos de segurança da Nasa após a lambança com o Columbia, em 2003. As duas seguintes foram missões de retomada da construção da Estação Espacial Internacional (ISS). E os dois vôos deixaram bem claro que a emoção está só começando para a montagem deste complexo orbital. Pouca gente pára para apreciar quão difícil é construir uma estação do tamanho de um campo de futebol em pleno espaço. Ainda teremos muitas missões do ônibus pela frente, cada uma mais interessante que a anterior, e os três vôos de 2006 mostraram que a Nasa ainda não perdeu a "mão".
Mike Griffin. Anote este nome. O homem que assumiu o comando da Nasa é fera. Não tem medo de tomar decisões corajosas, sejam elas impopulares -- como o corte de certos programas científicos para acelerar o desenvolvimento das naves lunares que substituirão os ônibus espaciais depois de 2010 -- ou arriscadas -- como a decisão de enviar uma missão tripulada para consertar o Telescópio Espacial Hubble, que estava praticamente condenado ao limbo até 2008, caso não recebesse uma visita de astronautas para realizar os reparos e as atualizações em seus sistemas. Griffin decidiu que, a despeito dos riscos, era possível enviar um ônibus espacial até lá para fazer o serviço. Os astrônomos, que ficaram acostumados ao bem-bom oferecido pelas imagens estonteantes do Hubble, agradecem.
Embora já estejam há mais de dois anos coletando dados a partir de uma posição privilegiada, os cientistas ainda estão muito intrigados com Titã, a maior das luas de Saturno. Antes da chegada da sonda Cassini às imediações saturninas, em 2004, os pesquisadores previam que Titã fosse um mundo com um ciclo hidrológico parecido com o da Terra, em que metano e etano faziam o papel da água, produzindo chuvas e recobrindo parte de sua superfície gélida com oceanos líquidos. Mas não foi o que os sobrevôos insistentes da sonda mostraram. Apesar disso, em 2006 o mistério começou a ficar um pouco mais claro, e a equipe da Cassini visualizou o que provavelmente é um laguinho de etano na superfície. Outro estudo, atmosférico, revelou o que possivelmente é uma nuvem de chuva em meio à névoa titaniana. Ainda há muito a estudar (e a Cassini segue lá, de prontidão), mas os mistérios dessa que é uma das maiores luas de todo o Sistema Solar finalmente começam a se render à teimosia dos cientistas da Terra.
Este foi um evento que, para o resto do mundo, foi absolutamente corriqueiro, mas para o Brasil foi de extrema relevância. O astronauta brasileiro, Marcos Cesar Pontes, partiu na manhã do dia 30 de março (ou noite do dia 29, pelo horário de Brasília) rumo à sua primeira viagem espacial. O vôo da Soyuz TMA-8 o levou à Estação Espacial Internacional, onde ele passou oito dias realizando experimentos científicos brasileiros a bordo do complexo. A viagem custou aos cofres do governo federal cerca de US$ 10 milhões e incendiou a opinião pública, levando a uma discussão importante sobre a vocação espacial brasileira (ou falta dela, para alguns). Só por colocar o programa espacial na ordem do dia, a viagem de Pontes cumpriu um papel importantíssimo. E, a despeito de concordarmos ou discordarmos, sua realização consistiu num momento histórico. O Mensageiro Sideral reserva para o futuro a avaliação do impacto de longo prazo dessa jornada. Por agora, já se pode dizer que é permitido aos jovens brasileiros sonhar com uma carreira de astronauta.
Pesquisadores da Universidade do Arizona, usando o observatório espacial Chandra de raios X, identificaram a primeira evidência direta da existência da matéria escura -- uma substância misteriosa e invisível que ninguém sabe o que é, e que até então só podia ter sua existência sondada de uma maneira indireta (seus efeitos gravitacionais sobre objetos de matéria normal podiam ser observados). O sucesso veio com a observação de uma colisão de aglomerados de galáxias, que parece ter jogado toda a matéria normal de um lado e toda a matéria escura de outro, permitindo uma identificação positiva. Claro, há quem questione os resultados, e o debate ainda deve se estender por muito tempo. Mas os resultados obtidos pela equipe americana mostram que muito provavelmente a matéria escura não vai ter o mesmo fim que o éter luminífero (substância imaginária que, no século XIX, os físicos achavam que permeava o Universo inteiro, servindo como meio para a propagação das ondas de luz).
No fim de agosto, numa outra decisão política corajosa deste ano, a União Astronômica Internacional colocou para votação em sua reunião uma proposta para rebaixar Plutão de sua condição de planeta. A despeito do conservadorismo que costuma imperar na instituição, a proposta foi aprovada, e desde então ficou definido que o Sistema Solar tem somente oito planetas. Quanto a Plutão, foi rebaixado para a "segunda divisão", recategorizado como planeta anão. Óbvio que muita gente não ficou satisfeita (de crianças a astrônomos, passando por editoras de livros didáticos e o pessoal da equipe da sonda New Horizons), mas foi a coisa certa a fazer. Claramente, Plutão pertence a um vasto cinturão de objetos localizado além da órbita de Netuno e não merece estar na mesma categoria que astros imensos como Júpiter e Saturno. Além do mais, a mudança chamou a atenção da sociedade para a evolução do entendimento sobre a arquitetura do Sistema Solar, o que só pode ser boa coisa. Não é sempre que astronomia vira conversa de bar.