O "Projeto Celestoma" e o futuro do Sol 
O que astronomia e genômica têm em comum? Um bocado, na verdade.
Muita gente se diverte pisoteando os defensores do Projeto Genoma Humano, que vendeu o seqüênciamento do código genético da espécie como uma panacéia biológica e médica -- a leitura do "livro da vida" -- e acabou entregando uma sopa de letrinhas, e não muito mais que isso.
A verdade é que falta a esses críticos um pouco de visão: o seqüenciamento do genoma obviamente é apenas uma plataforma. Uma vez que ele esteja disponível, qualquer estudo de um alvo genético específico (genes ligados ao câncer, por exemplo) terá uma base de dados prontinha, para comparação e estudo. A decifração dos cerca de 3 bilhões de pares de bases do DNA humano não resolveu (nem obviamente ia resolver) patavina por si mesma. É um instrumento. Para os geneticistas, a brincadeira começa realmente agora, com o genoma decifrado.
Muito bem, e o que a astronomia tem a ver com tudo isso? Bem, tem gente trabalhando com a mesmíssima premissa que justificou o Projeto Genoma Humano -- e vendendo isso com a mesma grandiloqüência.
"Dito de forma simples, é a mais ambiciosa pesquisa astronômica já realizada", diz o site da Sloan Digital Sky Survey (que pode ser traduzida mais ou menos como "Pesquisa Digital Sloan do Céu"). "Quando completado, ele fornecerá imagens ópticas detalhadas que cobrirão mais de um quarto de todo o céu, e um mapa tridimensional de cerca de 1 milhão de galáxias e quasares."
Sim, é basicamente um "Projeto Celestoma" -- a ambição de ler o "livro do Universo".
O método de observação é tão simples quanto a rotação da Terra em torno de seu próprio eixo. Os pesquisadores apontam para cima um telescópio de abertura de 2,5 metros em Apache Point, no Novo México, dedicado totalmente ao esforço. E aí, conforme a Terra vai girando, partes diferentes do céu ficam sob a mira do dito cujo.
O projeto foi iniciado em 2000, e no ano passado concluiu a sua primeira fase. "No decorrer de cinco anos, o SDSS-I imageou mais de 8.000 graus quadrados do céu em cinco bandas, detectando algo como 200 milhões de objetos celestes e medindo espectros de mais de 675 mil galáxias, 90 mil quasares e 185 mil estrelas. Esses dados apoiaram estudos que iam de asteróides a estrelas próximas à estrutura de grande escala do Universo."
São números grandiosos, mas o que eles dizem? Assim como os números da pesquisa genômica, nada de mais.
Em compensação, as imagens do SDSS (assim como as bases de dados do Projeto Genoma Humano) oferecem uma tremenda plataforma para outros estudos -- esses sim bem importantes.
Foi o que aconteceu recentemente com um grupo liderado por Boris Gänsicke, da Universidade de Warwick, no Reino Unido. Usando dados brutos do SDSS, eles encontraram um objeto batizado de SDSS J122859.93+104032.9 (que, em razão do nome intragável, eles de pronto apelidaram de SDSS 1228+1040 -- pasme, esse é o nome "amigável" dele).
Trata-se de uma anã branca, com massa ligeiramente inferior à do Sol (77%, para ser exato), localizada a cerca de 500 anos-luz da Terra (um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano no vácuo, cerca de 9,5 trilhões de quilômetros).
Até aí, sem novidades. Os cientistas sabem há tempos o que é uma anã branca: o cadáver de uma estrela, estágio final de astros como o Sol ou um pouco maiores que ele.
Mas, vamos lá, antes de prosseguir com a história, um pouco de "Astrofísica 101". Começando pelo mais básico: o que é uma estrela? Esses astros são basicamente imensas bolas de gás, compostas principalmente por hidrogênio, que são comprimidas de tal forma por sua própria gravidade que, em seus núcleos, os átomos de hidrogênio começam a grudar uns nos outros. O processo, conhecido como fusão nuclear, faz com que hidrogênio se transforme em hélio, um átomo mais pesado, e o resultado é a liberação de grande quantidade de energia -- o que faz a estrela brilhar, em vez de entrar em colapso gravitacional, implodindo pelo excesso de massa.
Conforme o hidrogênio vai escasseando no núcleo da estrela, ela começa a fundir outros elementos, a começar pelo hélio. Com isso, a estrela incha e se torna uma gigante vermelha. Mas chega um momento em que não há mais o que fazer -- para fundir ferro em algo mais pesado, você precisa gastar mais energia do que a produzida pela fusão. E muitas estrelas nem têm massa suficiente para atingir esse estágio. O Sol, por exemplo, jamais vai chegar a esse ponto. Muito antes disso, não haverá pressão interna suficiente para prosseguir com a fusão e o núcleo da estrela implodirá sob sua própria gravidade, expulsando suas camadas exteriores.
O núcleo exposto que sobra é o que os astrônomos chamam de anã branca. Como boa parte da matéria foi expulsa, o que sobra é muito menos do que a massa original.
Voltando agora à SDSS 1228+1040. Com 77% da massa do Sol hoje, ela deve um dia ter tido quatro a cinco vezes a massa do Sol, quando era uma estrela normal. E agora a novidade realmente interessante: essa estrela tem hoje um espectro bem esquisito.
Chega a hora de os astrônomos bancarem o Sherlock Holmes. De onde vem a esquisitice?
A resposta que eles encontraram, publicada há duas semanas na revista científica britânica "Nature", foi surpreendente: ao que tudo indica, há um disco de poeira em volta da anã branca. Para eles, esse disco surgiu pelo deslocamento gravitacional de um asteróide, que foi atirado para dentro do sistema por um planeta.
Pois é, mesmo depois que a estrela expulsou suas camadas exteriores e se tornou uma anã branca, ainda sobraram alguns planetas girando em torno dela. Isso, por si só, já é interessante -- dá algumas pistas sobre o futuro dos planetas gigantes gasosos do nosso Sistema Solar, depois que o Sol se tornar ele mesmo uma anã branca. (Vale lembrar que Mercúrio, Vênus e, possivelmente, a Terra serão engolfados pelo Sol quando ele se tornar uma gigante vermelha, e não devem sobreviver até a fase de anã branca. Quanto a Marte, há uma boa chance de que ele continue existindo após todo o agito.)
Entretanto, o mais interessante mesmo é a confirmação de que estrelas maiores que o Sol também têm a capacidade de abrigar planetas ao seu redor. Até agora, os corpos planetários descobertos fora do Sistema Solar costumam estar em órbitas ao redor de estrelas do mesmo porte ou menores que a nossa. (Tirando um caso bizarro em que foram detectados três planetas ao redor de um pulsar -- assunto que fica para outra ocasião.)
Embora, até onde saibamos, planetas sejam os melhores lugares para o surgimento da vida, os fãs dos ETs não devem comemorar muito: mesmo que planetas se formem ao redor de estrelas de grande massa, a alegria acaba muito rapidamente -- a vida de estrelas maciças é fulgaz, e o consumo de combustível é acelerado. Em poucos milhões de anos (no caso de SDSS 1228+1040, cerca de 70 milhões de anos), a estrela vive e morre, convertendo-se em anã branca. É muito pouco tempo para a vida se desenvolver (na Terra, pelo menos, foi preciso pelo menos dez vezes mais tempo) e, depois da morte da estrela, tudo fica muito mais difícil.
No fim das contas, ao estudarmos os astros celestes, descobrimos que as coisas podem ser muito parecidas (planetas em toda parte) e muito diferentes (graus variados de propensão à vida) Universo afora. E a conclusão não está muito longe da que tiram os cientistas que estudam e comparam genomas de diversos seres vivos: em todas as suas escalas, o cosmos é uma celebração das semelhanças e diferenças.