Formulário de Busca

Mensageiro Sideral

  1. Atualizado em -

    Outra verdade inconveniente

    O último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental para Mudança Climática), divulgado nesta sexta-feira (2), disse basicamente que as conclusões anteriores do grupo, já devastadoras, na verdade foram otimistas. Ou seja, tudo está ainda pior do que antes se pensava. A temperatura média do planeta deve subir quatro graus Celsius até 2100, e não se descarta a hipótese de que esse aumento chegue a mais de seis graus. Uma bela esquentada, movida basicamente pela ação humana -- ação esta que despeja toneladas e mais toneladas de gás carbônico e outros gases acentuadores do efeito estufa todos os dias na já maltratada atmosfera terrestre.

    Até aí, sem novidades. Agora, a boa notícia: ao final das contas, tudo vai ficar bem. Vou dizer de novo: pode até parecer, mas isso não é o fim do mundo.

    E por que diabos o Mensageiro Sideral está falando disso? Porque é exatamente a perspectiva astronômica que nos proporciona essa visão transcendente do problema. Basta lembrar que o planeta Terra foi surrado incontáveis vezes pelo impacto de gigantescos asteróides, que causaram extinções violentíssimas. A pancada mais conhecida foi há 65 milhões de anos, e o resultado foi a morte dos dinossauros -- até então, reis absolutos da Terra.

    O impacto de um asteróide é capaz de proporcionar mudanças climáticas radicais (sem mencionar outros efeitos devastadores). Logo depois do choque, com a enorme quantidade de poeira levantada na atmosfera em escala global, a luz solar não consegue chegar com força total ao chão, induzindo um esfriamento global. Depois, com o aumento do vulcanismo, acompanhado pelo assentamento do pó, o mundo passa por um aquecimento global. Essa ida e vinda acontece num ritmo muito mais acelerado do que o proporcionado por escapamentos e chaminés de fábricas humanos.

    Ainda assim, desde que a vida surgiu na Terra, cerca de 4 bilhões de anos atrás, nenhuma dessas ocorrências radicais foi capaz de erradicá-la por completo. Sempre sobra um organismo ou outro que possui resistência ao ambiente desolador, e logo seus descendentes repovoam os habitats desocupados após a catástrofe.

    O registro fóssil mostra que não demora muito (em escala geológica) até que a biodiversidade do planeta se recupere de uma extinção em massa. E, o que é mais curioso, muitas vezes essas extinções parecem vir acompanhadas de um rebote, que torna a biosfera regenerada ainda mais pujante do que sua versão anterior. Não é à toa que a época dos dinossauros, que veio após uma outra grande extinção maciça, há 230 milhões de anos, é vista como a era em que a biodiversidade terrestre atingiu seu pico de riqueza.

    E agora o mais surpreendente: nessa época, a Terra era bem mais quente do que é hoje, e não muito diferente do que os modelos do IPCC projetam para nosso planeta no futuro.

    É claro que o aquecimento global agora em andamento vai causar muitas extinções (embora não mais que um asteróide). Afinal, a transformação proporcionada pela ação humana é rápida demais para que as criaturas vivas consigam fazer uma adaptação lenta e suave, ao modo da evolução. Em compensação, os poucos seres que resistirem serão mais bem adaptados, e quando a Terra for repovoada por seus sucessores, a tendência é que se mostrem ainda mais resistentes que as versões anteriores. É evoluir ou evoluir, quando existe um estresse ambiental dessa magnitude.

    Então, no longo prazo, a conclusão é surpreendente: o aquecimento global, para a biodiversidade terrestre a longo prazo, pode ser até mesmo uma coisa boa.

    Um ambientalista mais radical pode se indignar com a conclusão -- a "melhoria" ocorrerá à custa da perda de muitas espécies já existentes --, mas aí é só lembrar que extinções ocorrem o tempo todo, mesmo sem a participação do malvadão ser humano. Sumir em algum ponto do tempo parece ser o destino de toda espécie.

    Poxa, mas então por que tanta gente está se sensibilizando com a mudança climática? Bem, ela pode ser muito ruim para as pessoas, sobretudo em lugares importantes (entenda-se ricos). Veja a Inglaterra, por exemplo -- a turma da rainha parece tresloucada. O primeiro-ministro Tony Blair, que não ousa discordar de George W. Bush quando o assunto é invadir o país dos outros, até se arrisca a pedir aos americanos uma política mais agressiva contra o aquecimento global (vale lembrar que os EUA são responsáveis de cerca de 25% de toda a lambança atmosférica). Por quê? Bem, se você mora numa ilha, talvez incomode o fato de que o nível global dos oceanos vai subir um bocado se as coisas continuarem como estão.

    A Indonésia, então, que é um amontoado de ilhas, deve perder um monte de território com essa brincadeira. E, de um modo geral, as grandes aglomerações de populações humanas estão nas áreas costeiras dos continentes. Isso mesmo, "glub glub" para eles.

    Longe do mar, as mudanças também serão radicais. Mais velhinhas devem morrer por ondas de calor na França, a Amazônia deve perder muito de sua pujança com o surgimento de áreas de cerrado no meio da mata, e o aquecimento das regiões subtropicais (entenda-se por isso a Europa e o norte da América) deve trazer doenças até então típicas de países tropicais para a porta do primeiro mundo. Entendeu por que de repente os gringos resolveram pesquisar tudo sobre malária?

    Agora, nem tudo será ruim para os humanos após a mudança climática. Haverá áreas antes muito frias que subitamente passarão a servir para a agricultura, e as atividades humanas terão de se deslocar de um lugar ao outro. Mas o ser humano não vai deixar de existir.

    Talvez a população global (hoje beirando a casa de absurdos 7 bilhões de habitantes) sofra um encolhimento severo. E até isso seria uma boa notícia para a Terra, que está sofrendo para comportar os humanos que já estão aí.

    Isso tudo quer dizer que ninguém deve combater o aquecimento global? Claro que não. A mudança da matriz energética humana é uma boa pedida, pois o petróleo não vai estar aí para sempre, e mitigar os efeitos do aquecimento global vai ser mais barato para a economia global (a longo prazo) do que ignorar o problema. E, óbvio, se der para morrer menos gente, ninguém vai achar ruim.

    Agora, se ninguém fizer nada disso, o problema será mesmo só para o ser humano -- melhor parar de procurar desculpas "ambientais" para combater a mudança climática. A Terra, com sua incansável tropa de formas de vida destinadas à adaptação, seguirá firme e forte -- e talvez com ainda mais sucesso, uma vez que dê uma lição em nós e em nossa arrogância tecnológica.

    () comentários | Permalink

perfil

Mensageiro Sideral

O Universo, com seus 13,7 bilhões de anos e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas, tem infindáveis histórias a serem contadas. Aqui exploraremos uma pequena amostra. Meu nome é Salvador Nogueira. Sou jornalista científico desde 2000, editor de Ciência e Saúde do G1 e autor dos livros "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço" e "Conexão Wright-Santos-Dumont: A Verdadeira História da Invenção do Avião".






Formulário de Busca


2000-2007 globo.com Todos os direitos reservados. Política de privacidade