A era da planificação do clima A Terra? Não, Marte -- após o Grande Aquecimento Global. |
Já tive
oportunidade de falar de como, de uma perspectiva cósmica, tem gente exagerando no impacto que o aquecimento global causado pela ação humana terá na Terra a longo prazo. Mas agora vou fazer uma provocação ainda maior: submeto a você a hipótese de que o aquecimento global pode ter sido uma das melhores coisas que aconteceram aos seres humanos para sua futura sobrevivência -- neste planeta e em outros.
Peraí, como assim? Como é que pode ser verdade uma coisa dessas? Acompanhe comigo, caro leitor.
O processo que levou ao aquecimento global foi conduzido ao longo do século XX, quando a galera começou a queimar toneladas e mais toneladas de petróleo, para suprir a demanda cada vez maior de energia pela humanidade (sobretudo por aquela parcela da humanidade que tinha grana para pagar a conta de luz e o reabastecimento do tanque de gasolina, nos países desenvolvidos).
O detalhe é que (1) durante a maior parte desse período ninguém sabia que estava adulterando o clima e (2) ninguém fazia isso sozinho -- era uma ação coletiva, costurada com fios de aço ao tecido social (não dava para, simplesmente, de um dia para o outro, eu parar de consumir o petróleo que eu estava consumindo, e, ainda que eu parasse, de nada adiantaria, porque o meu vizinho seguiria queimando a parte dele). Isso encorajou inação e acabou levando à situação perigosa que vivemos hoje.
Mesmo com todo o crescente conhecimento que temos desse processo -- hoje está claro que somos nós mesmos que estamos causando a mudança climática, emitindo gases que acirram o efeito estufa na atmosfera (aliás, tem um infográfico show de bola do
G1 explicando isso,
aqui) --, ainda não conseguimos estabelecer uma forma socialmente responsável de interromper o processo. Sabemos que precisamos cortar a queima de petróleo e carvão, assim como diminuir o ritmo do desmatamento, mas ninguém sabe ainda como abastecer energeticamente as populações humanas sem o petróleo. Algumas pistas estão aí, como o avanço do etanol em substituição à gasolina, e os esforços para aproveitar melhor fontes renováveis, como os ventos e a radiação solar, mas ainda não dá para virar a chave e viver só de energia limpa.
Isso quer dizer que as transformações pelas quais o planeta passará nos próximos 30 a 50 anos são inevitáveis. As de daqui a cem anos talvez possamos aliviar, se conseguirmos acelerar esse processo de substituição das nossas fontes de energia, e depois disso a história do planeta é um livro aberto.
Nas próximas cinco décadas, o aquecimento global já trará um belo prejuízo, natural e econômico. Já estamos vendo perda de biodiversidade (embora eu defenda que a Terra, a longo prazo e no frigir dos ovos, não vá se incomodar muito com isso), a mudança radical e acelerada de certos habitats, o derretimento do gelo polar e a elevação do nível dos mares. Disso não resultará um Cristo Redentor apontado para uma cidade submersa, como sugerem alguns mais apavorados, mas sim um gasto significativo com medidas de mitigação, melhoramento de plantas para manter certos cultivos em regiões modificadas pela transformação climática e desenvolvimento de novas técnicas de construção civil para impedir que o mar suba em cima das cidades. (Vale lembrar que a Holanda já está há um bom tempo sob o nível do mar e continua lá, firme e forte.)
Tudo isso é factível, ainda que caro. E finalmente estamos vendo algum impulso político para a transformação das matrizes energéticas usadas pelos seres humanos. Até George W. Bush, inimigo número um do clima, não consegue mais negar a gravidade do aquecimento global. Então, no médio prazo, é quase certo que vamos fazer essa transição. Energia nuclear (sim, energia nuclear é uma boa, mas o assunto fica para uma próxima coluna!), solar e eólica deverão nos garantir um futuro menos ameaçado pelo aumento desenfreado de dióxido de carbono e outros gases-estufa na atmosfera.
E aí é que entra a parte boa dessa história toda. Hoje, estamos enfrentando uma mudança climática causada pela ação humana. Mas a história pregressa da Terra foi salpicada por transformações do clima com as quais a humanidade nada teve a ver. Alterações na órbita da Terra ao redor do Sol, variações na atividade da própria estrela e transformações proporcionadas por ações biológicas e geológicas já fizeram o planeta passar por vários aquecimentos e resfriamentos globais. (Ah, antes que alguém pergunte, o Sol não vai apagar em 700 anos, como o filme
"Sunshine", recém-chegado ao Brasil, sugere.)
É inevitável que esses processos voltem a agir no futuro, mas é bem possível que queiramos
evitar as mudanças climáticas que decorreriam deles. (Aliás, há quem diga que já estamos fazendo isso e que deveríamos estar entrando numa nova Era do Gelo, não fosse nosso inadvertido esforço de rechear a atmosfera terrestre de gases-estufa.)
Uma vez que aprendamos tudo que estamos aprendendo com a mudança climática, aprimorando enormemente a ciência do clima e desenvolvendo (sem querer ou por querer) formas de manipulá-lo, poderemos chegar a um momento em que a humanidade controlará certos parâmetros do ambiente terrestre, mantendo-os nos níveis que mais interessam aos seres humanos. Trocando em miúdos: seremos os senhores do clima.
E não só do nosso planeta de origem, devo dizer. Pode também ser este o princípio de um longo aprendizado que levará a humanidade a desenvolver as tecnologias necessárias para "terraformar" outros mundos. Cientistas como Chris McKay, do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, defendem que seja possível transformar Marte, no futuro, num planeta habitável, similar à Terra, e o começo do processo imaginado por ele, veja você, consistiria em inserir grandes quantidades de gases-estufa na atmosfera marciana, aumentando a temperatura e propiciando um derretimento mais acentuado das calotas polares. O dióxido de carbono presente nelas iria para a atmosfera, criando uma retroalimentação positiva que daria continuidade ao processo de aquecimento induzido, tornando o ar mais denso e permitindo que a água fluísse em seu estado líquido pela superfície do planeta vermelho.
Depois disso, bastaria levar àquele mundo plantas e bactérias capazes de converter o dióxido de carbono em oxigênio e, voilà!, após algumas dezenas de milhares de anos, teríamos uma atmosfera respirável por humanos e um clima ameno no planeta vizinho ao nosso.
Sei lá eu se isso vai acontecer. Mas, se um belo dia seres humanos viverem e morarem em Marte, e nossa espécie tiver se tornado verdadeiramente a guardiã do Sistema Solar, eles terão de se lembrar que tudo começou com uma coisa que hoje, num processo que quase parece histeria coletiva, vemos como uma grande tragédia anunciada.
Os pólos estão meio cheios ou meio vazios? Você escolhe.