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Mensageiro Sideral

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    Super-herói na cadeira de rodas

    Quando falamos de heróis, a imagem que vem mais fácil à cabeça é a de personagens fortes e garbosos, com esvoaçantes capas vermelhas e super-poderes. Mas hoje eu vou falar de um herói que não tem nenhuma dessas características, e talvez por isso valha mais do que todos os outros. O meu herói vive numa cadeira de rodas há quatro décadas, respira por um buraco em sua garganta, não fala e não consegue fazer nada sem a ajuda de enfermeiros. Diante dessas circunstâncias, mais fragilizantes do que às que é submetida a imensa maioria da população mundial, Stephen Hawking se ergue como um gigante, um representante do que pode haver de melhor no ser humano.

    O físico britânico voltou mais uma vez às manchetes na última quinta-feira, ao realizar um vôo parabólico de avião para experimentar a sensação de falta de gravidade. Foi basicamente um "ensaio" do que pode vir a ser uma viagem para valer ao espaço sideral -- pelo menos a passagem ele já tem, prometida pelo magnata Richard Branson, que está criando a primeira empresa privada a possuir uma frota de espaçonaves para turismo, a Virgin Galactic.

    Hawking não dá ponto sem nó. Sua viagem foi muito mais do que meramente um entretenimento caro para um corpo quase totalmente desfalecido -- como cabe bem aos heróis, a ação do famoso cientista tem uma "moral da história". Ela diz: se até alguém como Steve pode ir ao espaço, qualquer um pode.

    Ele mesmo admite que boa parte da motivação para tomar parte na aventura veio da idéia de encorajar a humanidade a acreditar na ocupação do espaço. Para ele, não há outra saída para a continuada existência humana, senão a exploração de outros mundos além da Terra. Nem preciso dizer que a opinião dele é compartilhada pelo Mensageiro Sideral.

    Entretanto, o que mais impressiona não é a mensagem que Hawking envia ao flutuar no ar, mas a que ele enviou durante muitos anos ao perambular pelo mundo em sua cadeira de rodas. Ele é a personificação do que o espírito humano é capaz quando há determinação e alegria de viver, a despeito de quaisquer impedimentos.

    Hawking era somente um físico promissor tentando concluir seu doutorado quando foi diagnosticado com distrofia lateral amiotrófica, aos 22 anos de idade. Trata-se de uma doença congênita causada por razões ainda pouco compreendidas que, uma vez despertada, leva à deterioração de todos os músculos do corpo e conduz inevitavelmente à morte. Os médicos do cientista deram a ele pouco tempo de vida. Mas quem disse que Steve acreditou? Determinado, ele hoje já completou 65 anos, superando até mesmo as mais otimistas expectativas para alguém em sua condição.

    Não bastasse isso, enquanto seu corpo deteriorava em ritmo acelerado, Hawking se recusou a ser apagado pelo tempo. Em seu cérebro cada vez mais isolado, realizavam-se cálculos dos mais abstratos, manipulações ousadas das equações da teoria da relatividade geral de Einstein e da mecânica quântica. No maior sucesso de sua carreira como cientista, em 1974, Hawking concluiu que os buracos negros -- até então totalmente negros, ou seja, incapazes de emitir qualquer coisa -- na verdade produzem radiação e, com isso, vão lentamente evaporando com o passar dos éons, até sumir por completo.

    Na verdade, essa foi a única coisa realmente revolucionária que ele produziu em sua carreira como cientista. Brilhante? Sem dúvida. Mas nada no nível intelectual de um Albert Einstein ou um Isaac Newton -- Hawking dificilmente causará mudanças tão impactantes na física quanto esses dois aí. (A despeito disso, e para aumentar a mística, Hawking hoje ocupa a cadeira Lucasiana na Universidade de Cambridge, posto originalmente ocupado por Newton.)

    Claro, como um cientista muito capaz, mas ainda assim com colegas de igual estatura intelectual ao seu redor, ele nunca deixou de ter seus opositores -- gente que, com alguma razão, aponta que Hawking jamais teria sido catapultado a esse status de pop star inigualável não fosse sua condição médica.

    Mas tudo bem. Heróis da vida real, diferentemente daqueles que usam capa vermelha nas histórias em quadrinhos, têm mesmo seus defeitos e falhas. Se isso faz algo por Hawking, é aproximá-lo ainda mais de nós, como um homem, não como uma criatura mítica. E tê-lo por perto ao longo das últimas décadas foi uma ótima coisa para o mundo.

    Com sua própria imagem, Hawking fez mais que todos os seus colegas para aproximar a ciência do cidadão comum. Escreveu uma série de livros de divulgação, a começar pelo clássico "Uma Breve História do Tempo", de 1988, e jamais renunciou a seu papel como formador de opinião -- mesmo depois de perder sua voz em uma traqueostomia de emergência, o que levou ao início de batalhas cada vez mais ferrenhas para se comunicar, por meio de um computador que fala por ele. De início, Hawking digitava o que queria dizer com os dedos em que ainda tinha algum movimento. Hoje, ele contrai a bochecha para selecionar palavras de uma lista. Uma sentença de 35 palavras leva 15 minutos para ser redigida. E ele não desiste.

    Nunca desistiu. Logo no início dessa comunicação computadorizada, Hawking pedia desculpas a seus interlocutores por seu recentemente adquirido "sotaque americano" -- a máquina fala com o inglês dos Estados Unidos. Hoje, ele já se acostumou. E seu intelecto afiado aparece ainda mais, com a necessidade de ser sucinto em tudo que diz. Hawking teve de aprender a dizer o que queria com o menor número de palavras possível. Sua nova "voz" é mais conhecida que a antiga, e ficou imortalizada até mesmo numa canção do Pink Floyd.

    Aliás, se alguém tinha ainda alguma dúvida, não custa dizer aqui: Steve adora estar no centro das atenções. Em 1993, ele deixou chegar aos ouvidos dos produtores da série "Jornada nas Estrelas: A Nova Geração" que era fã do programa e gostaria de visitar os sets de filmagem. Ao passear pela Enterprise e parar em frente ao possante motor que supostamente permitiria que a nave atravessasse o espaço interestelar mais rápido que a luz, Hawking brincou: "Estou trabalhando nisso". Depois, perguntou se não poderia participar de um episódio. Os roteiristas não tiveram problemas para encaixá-lo, escrevendo uma cena em que o andróide Data joga pôquer com recriações de Isaac Newton, Albert Einstein e Stephen Hawking, numa recriação em realidade virtual. Naturalmente, Hawking vence a partida.

    Mais de dez anos depois, o sonho do cientista de ir a bordo de uma Enterprise de verdade parece estar mais próximo: seu organismo agüentou firme e forte as oito parábolas realizadas pelo avião da companhia Zero G, experimentando um total de cerca de quatro minutos de ausência de peso. Aparentemente, Hawking está qualificado para ir ao espaço -- o que deve ocorrer assim que a Virgin Galactic começar a operar, em dois anos.

    Mesmo que ele não chegue lá, Steve já fez o mais importante. Depois dele, não há mais dúvida de que, se alguém realmente se determina a fazer algo, não há nada no mundo que possa impedi-lo. Se isso não é ser um herói, então não sei o que pode ser.

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Mensageiro Sideral

O Universo, com seus 13,7 bilhões de anos e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas, tem infindáveis histórias a serem contadas. Aqui exploraremos uma pequena amostra. Meu nome é Salvador Nogueira. Sou jornalista científico desde 2000, editor de Ciência e Saúde do G1 e autor dos livros "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço" e "Conexão Wright-Santos-Dumont: A Verdadeira História da Invenção do Avião".






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