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Mensageiro Sideral

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    Ambientalismo numa galáxia muito distante

    É difícil para um fã inveterado de "Jornada nas Estrelas" declarar isso, mas eu confesso que essa onda dos 30 anos de "Star Wars" acabou me contagiando. Eu, que só tinha comprado o Episódio I em DVD, subitamente me vi à caça dos outros cinco filmes. (Aliás, "O Ataque dos Clones" está esgotado em quase todas as lojas on-line... e eu não vou contar onde eu encontrei o meu -- não até que ele chegue lá em casa.)

    Não, essa não vai ser uma coluna sobre como "Star Wars" é legal ou de como a franquia iniciada por George Lucas em 1977 revolucionou o cinema. Também não vou falar (muito) da "astronomia de Guerra nas Estrelas" (lamento, amigos, mas depois que Han Solo mencionou "parsecs" como medida de tempo, em vez de distância, eu desisti de interpretar o lado astronômico do show).

    Prepare-se, então, para uma abordagem inédita (pelo menos, eu espero que seja) da cinessérie, "by" Mensageiro Sideral: o ambientalismo em "Star Wars". A viagem tem três paradas programadas. Então, prepare-se para um salto para a velocidade da luz na direção de Coruscant, o planeta-capital da República Galáctica (convertida em Império pelo chanceler Palpatine no Episódio III).

    Alguém aí se lembra desse planeta? Aposto que sim, mas, em todo caso, aqui vai uma "foto" dele.



    Pois é. Embora seja o planeta mais pródigo da galáxia muito distante, está claro que existe uma séria demanda por ambientalistas. Aquele mundo é basicamente uma cidade planetária, 100% urbanizado. Em todas as imagens já vistas dele nos filmes da série, não tem uma plantinha lá -- é prédio, prédio e mais prédio. Coruscant faz a "selva de pedra" de São Paulo parecer a floresta amazônica.

    A pergunta que fica é: como esse planeta ainda não passou por uma catástrofe ambiental sem precedentes? Bem, as respostas são muitas e variadas. A mais óbvia é: porque ele é uma criação de um diretor de cinema hollywoodiano, que por sua vez não tinha o menor compromisso com a realidade.

    Tá bem, mas a gente pode fazer melhor do que isso, né? A verdadeira pergunta é, "pode um planeta sobreviver a tamanho processo de urbanização"?

    Bem, se estamos falando de 100% de urbanização -- algo como nenhuma criatura fotossintetizante sobrevivente no planeta inteiro --, fica realmente muito difícil. Mas não impossível.

    Para começo de conversa, vamos falar do tema ambiental mais exageradamente noticiado nos dias de hoje: aquecimento global.

    Todo mundo fala que preservar floresta ajuda a combater a mudança climática, e, para a Terra do início do século XXI, isso é mesmo verdade. O que acontece é que seres vivos em geral são basicamente feitos de compostos de carbono, e as plantas são, além de repositórios naturais de carbono, pelo menos em alguns casos, sugadoras de carbono atmosférico (o balanço entre o consumo e a emissão às vezes não é o melhor para o clima, mas em boa parte dos casos é).

    Entretanto, precisamos entender isso no contexto terrestre. Vivemos num planeta em que a emissão de carbono por atividades humanas é imensa -- e é esse desequilíbrio que pede que economizemos cada carboninho a ser emitido (daí a vantagem da floresta em pé -- é garantia de que não gastaremos mais). Ocorre que a tecnologia em "Star Wars" é muito mais avançada que a nossa. É presumível que a geração de energia lá seja feita de forma "limpa", sem emissão de carbono. Usinas de fusão nuclear (indisponíveis para nós) devem ser o feijão-com-arroz lá. Os veículos possivelmente se movem a hidrogênio; petróleo não deve ser muito popular.

    Também podemos presumir que a cidade-planeta conta com um sofisticado sistema de monitoramento e controle de gases na atmosfera. Se bobear, eles até queimam um petrolinho de vez em quando, só para manter o efeito estufa em níveis favoráveis à manutenção de temperaturas adequadas à vida.

    O problema é que as criaturas fotossintetizantes também têm um outro papel: elas produzem o oxigênio que respiramos. Claro que esse serviço foi feito continuamente ao longo de bilhões de anos, e se amanhã acordássemos sem esses seres na Terra, ainda levaria um longo tempo até que realmente sentíssemos falta do oxigênio. Mas ele eventualmente cairia a ponto de tornar o ambiente inadequado para Jedis e outros seres entusiastas de oxigênio (isso presumindo que os "humanos" da galáxia muito distante sejam iguais aos da Via Láctea).

    É possível então que Coruscant tenha se tornado 100% urbanizado há relativamente pouco tempo, e o oxigênio ainda esteja em níveis abundantes. Ou podemos apostar numa solução tecnológica ao planeta: sistemas artificiais emitem grandes quantidades de oxigênio na atmosfera para manter os níveis globais do gás na atmosfera. Isso seria sábio, pois, além de manter o planeta habitável por um período de tempo indefinido, também permitiria a preservação da camada de ozônio (primo menos estável do oxigênio molecular, composto por três átomos), que protege a vida dos raios nocivos emanados das estrelas.

    Não é tão complicado produzir sistemas que gerem oxigênio. Isso acontece na Estação Espacial Internacional, em que o gás carbônico é retirado da atmosfera artificialmente e o oxigênio é gerado a partir da hidrólise da água. Mas claro que uma coisa é manter o oxigênio num cubículo em órbita da Terra, outra coisa é fazer o serviço na atmosfera de um planeta inteiro! Isso sem falar num detalhe: de onde virá a água?

    No caso da estação espacial, ela é levada periodicamente por cargueiros, a um custo elevadíssimo. Em Coruscant, temos um problema adicional: as imagens não revelam nenhum grande oceano. Isso não é grave em termos de consumo (água potável na Terra vem, em sua esmagadora maioria, de rios, não de oceanos), mas é sério se você for usar a água para gerar oxigênio molecular a partir dela.

    Enfim, problema dos midichlorians. Que, aliás, também terão de resolver de onde está vindo a comida dessa gente toda -- aqui na Terra, pelo menos, a gente só come basicamente planta e animal. Se lá não há nenhum dos dois, só resta imaginar que ou os Jedis só vivem de shake (e assim mantêm sua forma esbelta, o que também explicaria por que Darth Vader virou um gordão no final do Episódio VI), ou a comida é toda importada de outros mundos, ou a tecnologia já desenvolveu formas artificiais de produção de alimentos (algo como cultivar bifes em laboratório, a partir de células-tronco).

    Seja qual for a resposta, temos de concluir o seguinte: ainda que possível, não é nem um pouco vantajoso ter um planeta assim. Todos os problemas criados pela urbanização total poderiam ter sido evitados com um pouquinho de manejo sustentável dos recursos naturais. (A não ser, é claro, que Coruscant seja fruto do delírio de um antigo chanceler, que decidiu construir a capital da República num deserto inabitável -- algo parecido com a idéia de construir Brasília.)

    Um exemplo muito maior de sustentabilidade planetária está na terra natal da rainha Amidala, nossa segunda parada. Um salto da Millenium Falcon depois e estamos no planeta Naboo.
















    A imagem é muito mais agradável -- uma civilização claramente avançada convive em harmonia com a natureza. E olhe que a paz lá seria mais difícil de atingir, uma vez que duas espécies inteligentes convivem em harmonia. Os Gungans (do chatonildo Jar-Jar Binks) parecem ser os maiores abraçadores de árvores locais (embora sua tecnologia seja claramente avançadíssima, dando um belo exemplo de que não é preciso ser contra o avanço da civilização para ser a favor do ambiente), e o povo de Naboo também não é entusiasta da depredação ambiental -- a convivência harmoniosa da cidade urbanizada com belas cachoeiras e áreas verdes se manifesta num mesmo enquadramento de câmera.

    Aliás, no debate em que o povo de Naboo e os Gungans discutem uma possível aliança contra os exércitos de dróides da Federação do Comércio, no Episódio I, o jedi Qui-Gonn Jinn toca num ponto importantíssimo: ele menciona que os dois grupos vivem em simbiose, que um não pode viver sem o outro. Essa é mais ou menos a relação que nós, aqui na Terra, temos com o ambiente: não dá para preservar um sem preservar o outro. Talvez, a um custo muito grande, pudéssemos sobreviver, se tivéssemos as tecnologias de ponta da República Galáctica. Mas o mais provável é que a despreocupação ambiental transforme a Terra numa cópia de um outro mundo de "Star Wars": Tatooine, planeta natal de Anakin e Luke Skywalker.






















    É um mundo deserto, sem nada da prosperidade da República e depois controlado apenas marginalmente pelas tropas do Império. Pela distância da região mais civilizada da galáxia, acabou abandonado e administrado por uma organização mafiosa, comandada por Jabba the Hut.

    Nada disso é dito em tela, mas Jabba tem uma bela pinta de parasita -- ele provavelmente explorou indiscriminadamente todos os recursos do planeta, até que nada restasse. Talvez haja algum negócio de mineração por lá, mas a impressão maior é que o planeta vive do turismo, graças às corridas de podracer promovidas pelos Hutts, e do comércio que advém disso.

    Simplificações à parte, não é muito diferente da atitude de desprezo do governo americano diante dos problemas ambientais -- uma postura do tipo "não sei e nem quero saber" sobre todos os desafios envolvidos na criação de uma comunidade sustentável e próspera para todos.

    É duro de aceitar, mas já que George W. Bush não vai tirar lições de "Uma Verdade Inconveniente", documentário de seu rival Al Gore sobre a mudança climática, ele pelo menos podia rever os filmes do George Lucas...

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Mensageiro Sideral

O Universo, com seus 13,7 bilhões de anos e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas, tem infindáveis histórias a serem contadas. Aqui exploraremos uma pequena amostra. Meu nome é Salvador Nogueira. Sou jornalista científico desde 2000, editor de Ciência e Saúde do G1 e autor dos livros "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço" e "Conexão Wright-Santos-Dumont: A Verdadeira História da Invenção do Avião".






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