Vivendo e reaprendendoEnquanto assistimos a mais um lançamento de ônibus espacial -- aquela nave linda, símbolo do poderio tecnológico americano, que ocasionalmente explode e invariavelmente não vai a lugar algum, fica apenas girando ao redor da Terra --, alguns engenheiros da Nasa estão trabalhando em algo realmente empolgante: a nave que levará astronautas de volta à Lua até 2020.
O projeto se chama Orion e foi definido pelo administrador da agência espacial americana, Mike Griffin, como uma "Apollo com esteróides". Em vez de acomodar três astronautas, como nas antigas missões lunares, a nova cápsula será capaz de levar seis à órbita terrestre. Para a Lua, a viagem seria feita com quatro tripulantes.
Relembrando: os americanos até hoje foram os únicos a colocar os pés na Lua. Doze homens caminharam pela superfície lunar, em seis pontos diferentes, conduzidos pelas missões Apollo 11, 12, 14, 15, 16 e 17. (Na Apollo 13, pobrezinha, todo mundo já soube no cinema o que aconteceu.)
Acontece que isso foi há muito tempo, entre 1969 e 1972. Desde então, os americanos interromperam as expedições lunares e se contentaram, pelos 40 anos que se seguiram, a fazer viagens orbitais ao redor da Terra -- exatamente como a que agora se desenrola com o ônibus espacial Atlantis e sua tripulação.

Essa súbita desistência da Lua, logo após sua conquista, abriu espaço para a criação de uma série de teorias da conspiração sobre as missões Apollo. Para alguns mais afeitos a lendas urbanas, seres humanos jamais foram à Lua, e as imagens de má qualidade que todos viram pela televisão naquelas ocasiões foram filmadas num estúdio (há quem diga até que o diretor das seqüências falsas foi ninguém menos que Stanley Kubrick!).
Já tive oportunidade de apontar evidências conclusivas sobre a veracidade das missões lunares noutro lugar do ciberespaço, então nem vou me estender nesse tema. Só gostaria de relatar algo que aconteceu no mês passado e que deve soar muito suspeito para quem acredita que o homem nunca foi a Lua.

Um grupo de engenheiros responsável pela criação da cápsula Orion esteve no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, para realizar uma legítima operação de dissecação: eles resolveram desmontar partes da última espaçonave Apollo remanescente. Por quê? Para descobrir como diabos os engenheiros daquela época construíram-na tão bem.
A espaçonave hoje exposta na Flórida foi a última Apollo construída. Designada CSM 119 (sigla para Módulos de Comando e Serviço 119), ela era a "reserva" para o último vôo planejado desses veículos, que não teve como destino a Lua, mas era igualmente histórico: a primeira missão espacial conjunta entre Estados Unidos e União Soviética. Em 1975, uma nave Apollo e uma nave Soyuz se encontraram em órbita e acoplaram, num projeto designado para que uma das superpotências pudesse resgatar astronautas de outra, em caso de emergência.
Felizmente, os engenheiros não desmantelaram totalmente essa relíquia, e a última Apollo continuará em exposição no Centro Espacial Kennedy. Na verdade, o pequeno grupo de especialistas estava interessado apenas numa peça, responsável por fazer as conexões entre o módulo de comando, onde os astronautas ficavam, e o módulo de serviço, que abrigava os motores, os sistemas, o combustível e o oxigênio da nave.
Uma pergunta para os fãs da "fraude lunar": por que razão estudar uma espaçonave que nunca foi à Lua para ir à Lua? Claro, claro, nada demoverá essas pessoas, e elas dirão que isso é mais uma encenação da Nasa para manter sua fraude de 40 anos atrás. Nem é por isso que estou falando desse assunto. O que eu quero aqui é mostrar exatamente o que está acontecendo na Nasa para promover esse retorno lunar: os engenheiros precisarão aprender tudo de novo.
A decisão de interromper o Projeto Apollo foi baseada no mesmo raciocínio usado para criá-lo: "precisamos bater os russos". Uma vez que a vitória dos ianques foi assegurada, em 20 de julho de 1969, perdeu o sentido político sustentar um programa tão caro quanto aquele. O presidente americano Richard Nixon, enfrentando uma forte recessão, decidiu encerrar as viagens lunares, abortando inclusive as já planejadas missões Apollo 18, 19 e 20. Para substituí-las, a Nasa apostou numa série de veículos reutilizáveis para missões orbitais: os ônibus espaciais, que estão voando até hoje.
Quando essa decisão foi feita, a agência espacial teve de reestruturar completamente seus complexos de projeto e construção. A produção do Saturn V, foguete de alta capacidade que impulsionava as naves Apollo em suas missões, foi interrompida, e os engenheiros que deram à luz esse grandioso conjunto de tecnologias foram, pouco a pouco, se aposentando.
Ao mesmo tempo, a nova geração foi mudando seu foco de trabalho -- concentrando-se cada vez mais na burocracia do que nos reais avanços, apostando mais em segurança e menos em audácia e lidando com um orçamento cada vez menor (na época do desenvolvimento da Apollo, durante os anos 1960, a verba da Nasa respondia por 5% do orçamento federal; atualmente, é de cerca de 0,5%).
Resultado: as lições aprendidas com os gastos monstruosos da década de 1960 foram perdidas, junto com o conhecimento adquirido por seus engenheiros. Hoje, ninguém na Nasa faz a mais vaga idéia de como construir algo parecido com a Apollo.
Claro, eles têm todas as plantas de todos os elementos, com todos os detalhes, mas não é a mesma coisa que torcer metal, ver como as coisas funcionam em conjunto e passar pela curva de aprendizado que advém desse processo. Desenhar não é o mesmo que construir.
Será preciso percorrer novamente essa rota. Pelo prazo dado pelo presidente George W. Bush, o processo deve estar concluído até 2020. A Nasa hoje trabalha com uma data de 2019 para o primeiro pouso lunar. Se ela será cumprida ou não, teremos de esperar -- e a espera será bem longa.
Enquanto isso, pelo menos temos as missões do ônibus espacial para acompanhar. Embora elas careçam do espírito de exploração e audácia das aventuras anteriores dos americanos no espaço, também estão recheadas de lições de engenharia, na montagem do maior complexo orbital já construído, a partir da maior parceria internacional já realizada (mais de US$ 100 bilhões, investidos por 15 países). Também não é algo de se jogar fora.