Baikonur, Kourou, Alcântara: passado, presente, futuroNa semana que passou, tive a oportunidade de visitar o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, e acompanhar os preparativos para o
lançamento do foguete VSB-30. Infelizmente, com os adiamentos sucessivos, não pude ver o dito cujo em vôo, mas deu para acompanhar de perto os trabalhos das equipes de técnicos e engenheiros envolvidas com a operação.
É o terceiro centro de lançamento que visito. Antes disso, estive no principal "espaçoporto" europeu, que, ironicamente, fica na América do Sul -- mais precisamente na cidade de Kourou, na Guiana Francesa, e no famoso centro em que tudo começou, localizado em Baikonur, no Cazaquistão.
Claro que, para mim, ir a Alcântara tem um sabor especial. Não porque ele seja melhor que os outros, ou mais interessante. Mas porque ele é o
nosso centro de lançamento. É dali que o Brasil começará a construir seu futuro no espaço.

Em termos de aparência geral, Alcântara tem muitas similaridades com Kourou. Os dois centros estão localizados numa região muito próxima da linha do equador, voltados para o mar e em meio a uma área extremamente arborizada. Ambos também estão próximos de pequenas cidades, com pouquíssima densidade populacional. No futuro, eles tendem a ser os grandes concorrentes na disputa pelos lançamentos comerciais de satélites.
Hoje, entretanto, não há possibilidade de briga. Em suas instalações, o Centro de Lançamento de Alcântara é muito mais modesto que o de Kourou. No posto europeu, já existe uma plataforma para o lançamento do gigantesco Ariane-5 (foguete mais poderoso em operação hoje) e a ESA (Agência Espacial Européia) já fechou um acordo para a construção de uma plataforma para os foguetes Soyuz russos.

O centro de controle de Alcântara é hoje tão pequeno que terá de ser reformado, modernizado e ampliado para lidar com foguetes maiores, como o ucraniano Cyclone-4. A sala é cercada por uma redoma de vidro, e do outro lado há três ou quatro fileiras de cadeiras para que se acompanhe o trabalho que se dá do outro lado. Não é nada que se compare ao gigantesco anfiteatro que fica "atrás" do centro de controle de Kourou.
Para que se tenha uma idéia da modéstia do espaçoporto maranhense, o trilho de onde se lançam foguetes de sondagem como o VSB-30 -- artefatos que nem sequer atingem a velocidade suficiente para colocar algo em órbita -- é denominado plataforma de "médio porte". No mundo real da exploração espacial, um foguete de médio porte seria um Soyuz, capaz de levar até mesmo uma nave tripulada à Estação Espacial Internacional. Para nós, o "grande porte" ainda é a plataforma do VLS-1, nosso projeto de acesso próprio ao espaço que se enquadraria na categoria de lançador de pequeno porte no mundo lá fora.
Aliás, a plataforma do VLS-1 hoje está vazia da silva, esperando que o Tribunal de Contas da União libere uma licitação da Agência Espacial Brasileira para que a torre móvel de integração -- prédio que envolve o VLS-1 e permite que ele seja montado para um lançamento -- possa ser reconstruída e reinstalada em Alcântara.
A infra-estrutura que não está ligada diretamente às operações com foguetes também ainda é pequena em Alcântara. Os jornalistas que visitaram o centro na semana que passou tiveram de se revezar no único computador com conexão à internet disponível para uso de pessoal de fora do CLA. Em Kourou, há um cômodo centro de imprensa com diversas conexões para laptops e computadores já conectados e prontos para uso.
A moral da história é que temos ainda muito que aprender, e a mentalidade militar que impera em Alcântara hoje -- o centro é totalmente controlado pela Aeronáutica, sem nenhuma instalação "civil" -- não vai ajudar a tornar os serviços de nosso centro mais "comercializáveis". Será preciso dar andamento a um projeto da Agência Espacial Brasileira (que até agora só se qualifica como "programa espacial de PowerPoint") denominado Centro Espacial de Alcântara, que pretende dar todo esse estofo civil à instalação da Força Aérea, com a infra-estrutura e o conforto necessários para tornar a região um legítimo pólo de desenvolvimento aeroespacial.

Mas o que nos falta em progresso nos sobra em animação. Foi entusiasmante ver as equipes trabalhando com muito empenho na preparação do nosso VSB-30. Cientistas se amontoando ao redor do módulo de carga útil do foguete para se certificar de que tudo estava bem para o vôo, e técnicos e engenheiros acordando às 5h da manhã para realizar as contagens regressivas simuladas e garantir de que tudo estaria pronto quando fosse para fazer o lançamento real. Transpiração e inspiração trabalhando em concerto, para dar andamento ao nosso programa espacial.
Muito bem, até agora falamos de Kourou e de Alcântara, respectivamente presente e futuro da exploração humana do espaço. Mas e quanto a Baikonur, o centro que levou o Sputnik e Yuri Gagarin ao espaço, tantas décadas atrás?
Os russos que me desculpem, mas Baikonur, nesse contexto, é o passado. O centro fica no meio do continente asiático, é controlada por russos mas possuída por cazaques, e a impressão geral que dá é a de um conjunto de instalações abandonadas. Embora haja muito agito lá (só em vôos de apoio à Estação Espacial Internacional, são duas Soyuz e quatro Progress por ano), a manutenção é mantida em níveis mínimos. Prédios cujo teto desaba são simplesmente esvaziados; o Buran, ônibus espacial russo, foi recentemente vitimado por um acidente assim -- uma relíquia que deveria estar num museu, destruída pelo descaso.
A paisagem é desoladora, no meio do nada, diferente das paisagens exuberantes que cercam Kourou e Alcântara. A localização não é a mais adequada aos lançamentos comerciais, distante do mar e da linha do equador. E o descaso russo, que tem contrato de aluguel da base até 2050, chama atenção. Parece aqueles inquilinos que não se preocupam em manter o estado do imóvel, uma vez que pretendem sair de lá assim que puderem. Enfim, embora Baikonur exale história, o cheiro na verdade está mais para mofo.