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Mensageiro Sideral

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    Do pó viemos e ao pó retornaremos

    A sonda americana Phoenix já começou sua viagem de cerca de oito meses rumo a Marte. Agora, partir, tudo bem -- moleza até. Quero ver mesmo chegar.

































    A missão da espaçonave é quase um "remake" de um filme que a Nasa não gostou muito. Em 1998, a agência espacial americana lançou ao espaço duas sondas marcianas: Mars Climate Orbiter e Mars Polar Lander. A primeira era uma orbitadora, a segunda deveria pousar no pólo sul do planeta vermelho. Ao chegarem lá, no ano seguinte, a primeira queimou na atmosfera, após um erro estúpido de conversão de medidas (lembre-se disso quando ouvir alguém reclamando de exercícios bobos de física na escola que pedem a conversão de temperaturas em graus Fahrenheit para Celsius). A segunda se espatifou no chão, por razões até hoje misteriosas -- mas provavelmente por um erro de cálculo dos sistemas automatizados que controlavam os retropropulsores.

    A Nasa perdeu duas sondas de uma vez e, com elas, sua reputação de sucesso em Marte, que contava então com três pousos bem-sucedidos de espaçonaves não-tripuladas (Viking-1 e 2, em 1976, mais a Mars Pathfinder, em 1996). Uma reformulação violenta do programa de exploração marciano se seguiu, com o cancelamento de uma sonda de pouso agendada para 2001.

    O planeta vermelho voltou a sorrir para a agência em 2004, quando seus engenheiros tiveram sucesso com dois pousos quase simultâneos -- os jipes Spirit e Opportunity, que desceram em regiões opostas de Marte e trabalham até hoje em solo marciano (embora estejam enfrentando seu maior desafio agora, com uma tempestade global de areia).

    A Phoenix (que ganhou esse nome por ressuscitar não só os objetivos gerais da perdida Mars Polar Lander, mas também instrumentos que originalmente voariam na missão escalada para 2001) quer pegar carona nesse sucesso. Mas é bom lembrar que pousá-la será bem diferente de fazer descer os jipes. No caso do Spirit e Opportunity, o método de pouso foi aquele que envolve, além dos tradicionais pára-quedas, airbags gigantes -- os robôs, envolvidos em casulos protetores, vão quicando no chão até atingirem uma parada total. Já a Phoenix descerá como desceram as Vikings, usando, além dos pára-quedas, somente retropropulsores (foguetes que reduzem a velocidade de queda), para realizar um pouso suave.

    É uma técnica que não é usada com sucesso em Marte desde 1976, com o adicional de que a região escolhida para o pouso é muito mais desafiadora -- uma planície gelada localizada próxima ao pólo norte marciano. Se fosse na Terra, seria mais ou menos como descer no norte do Alasca.

    "A decisão final foi feita no Quartel-General da Nasa no dia 20 de julho, depois de uma reunião do conselho de gerência do grupo de ciência", disse Ramon de Paula, engenheiro brasileiro que é o responsável pela missão na sede da agência espacial americana, em Washington, D.C. "O lugar de pouso da Phoenix vai ser no pólo Norte, 65º N, 234º O."



































    A tão ansiada chegada deve acontecer no fim de maio do ano que vem -- Marte é um bocado longe -- e posso apostar que todo mundo na Nasa vai fazer muitas figas no momento em que a espaçonave estiver realizando a perigosa travessia da atmosfera marciana, rumo a seu destino final. A agência espacial americana sabe que pode muito bem perder essa. Em entrevista ao G1, Ramon já chegou a admitir que essa missão, que saiu pela bagatela de US$ 420 milhões (cerca de R$ 800 milhões), pertence à classe das "batedoras" (Scout), é considerada "dispensável" pela Nasa.

    Mas não para o Mensageiro Sideral.

    Confesso. Estou ansioso pelo pouso da Phoenix. Se tudo der certo, a espaçonave transmitirá imagens de um tipo de ambiente até então jamais visto por olhos humanos em Marte, com blocos de água (na forma de gelo) nos arredores. E aí entra também o lado científico: com a água, todas aquelas coisas interessantes que vêm junto. E a Phoenix estará equipada para procurá-las. Pela primeira vez em muito tempo, uma sonda marciana terá experimentos destinados a procurar traços de química orgânica no planeta vermelho.

    Como todos sabem, química orgânica é o material de que organismos vivos são feitos. Então, com a Phoenix, a Nasa dá mais um corajoso passo na direção do que realmente queremos saber: há vida em Marte? (Para mais sobre a polêmica da vida marciana, clique aqui.)

    E estamos precisando mesmo de um empurrão para seguirmos adiante, na grande aventura que será a exploração humana do planeta vermelho -- um projeto que sofre adiamentos constantes pelo menos desde o fim das missões Apollo, em 1972.

    Quando eu estava escrevendo meu primeiro livro (não custa plugar: Rumo ao Infinito - Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço), entrevistei Jim Garvin, então cientista-chefe do programa de exploração marciana da Nasa. Ele me disse que tinha um feeling de que alguma grande descoberta daria o último impulso para que a Nasa resolvesse parar de enrolar e começasse a planejar de fato uma viagem tripulada ao planeta vermelho. Quem sabe não será com a Phoenix?

    Independentemente do potencial científico, um pouso em Marte é sempre um pouso em Marte. Com a iminente "morte" dos jipes Spirit e Opportunity, o fracasso da Phoenix significará que podemos ficar pelo menos até 2010 abstêmios com relação a novas imagens enviadas diretamente do solo marciano. É uma boa medida de como fomos mimados pela Nasa nos últimos anos.


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Mensageiro Sideral

O Universo, com seus 13,7 bilhões de anos e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas, tem infindáveis histórias a serem contadas. Aqui exploraremos uma pequena amostra. Meu nome é Salvador Nogueira. Sou jornalista científico desde 2000, editor de Ciência e Saúde do G1 e autor dos livros "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço" e "Conexão Wright-Santos-Dumont: A Verdadeira História da Invenção do Avião".






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