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Mensageiro Sideral

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    Tiro no pé ou a dura trilha das estrelas?

    Em 26 de julho -- três semanas atrás --, aconteceu um grande desastre na indústria aeroespacial dos Estados Unidos. Três técnicos foram mortos e outros três, gravemente feridos. Eles trabalhavam num teste de disparo de um motor-foguete para uma espaçonave ainda em fase de projeto. O "mishap", como eles chamam por lá, deu origem a uma série de investigações governamentais e colocou em risco um dos maiores sonhos da indústria aeroespacial.

    Não ficou sabendo? Como assim, não ficou sabendo? Até mesmo o G1 noticiou, aqui. Só não deu, assim como todo o resto da imprensa, muita bola para o assunto. E sabe por quê? Porque os coitadinhos não faziam parte de um esplendoroso programa espacial da Nasa, sustentados pelos dólares dos contribuintes americanos. Eles eram apenas profissionais dedicados de uma companhia de pequeno porte que tem por objetivo desenvolver um programa espacial privado. Eu disse privado.

    Desde os anos 1950, os mais entusiastas pela exploração e colonização do espaço estavam esperando que seus sonhos se tornassem realidade. Os programas espaciais governamentais atingiram muitas metas incríveis nos últimos decênios, mas uma coisa que eles não conseguiram fazer foi popularizar o vôo espacial. Até hoje, cerca de 400 pessoas foram ao espaço. Para um planeta de mais de 6 bilhões de habitantes, é um nada.

    E por quê? Porque os programas são públicos. Porque cada morte na Nasa foi paga com o dinheiro de impostos, e ninguém paga imposto para matar astronautas ou engenheiros. Aí, cada acidente obriga as agências espaciais do mundo inteiro a reforçar a segurança, certificar-se de que ninguém mais morrer daquele jeito. O que por um lado é ótimo: reduz drasticamente os riscos. Por outro, é péssimo: a exploração espacial se torna muito mais cara.

    Quando a Nasa partiu para cima do presidente Richard Nixon tentando convencê-lo a bancar o projeto dos ônibus espaciais, disse que faria 50 vôos por ano e reduziria brutalmente o custo do quilo enviado ao espaço. Como? Do mesmo jeito que vôos aéreos são relativamente baratos hoje -- as aeronaves voam muitas vezes ao dia, de forma que o custo enorme que elas representam é amortizado nas múltiplas viagens.

    Se a Nasa conseguisse lançar o ônibus espacial 50 vezes num ano, praticamente toda semana teria um lançamento novo. Seria uma revolução no setor espacial. Só que, depois de desenvolver o sistema, a agência descobriu que não era possível preparar as naves tão rapidamente para um novo vôo após um pouso bem-sucedido. Ainda assim, conseguiu realizar nove vôos num ano só -- o recorde até hoje --, em 1985 (quatro anos após a estréia dos veículos, em 1981). E então, em janeiro do ano seguinte, veio a fatídica missão da Challenger.

    A investigação subseqüente exigiu uma série de modificações nos sistemas de segurança -- que, naturalmente, custaram uma montanha de dinheiro. Com isso, as missões espaciais passaram a ser ainda mais caras do que na era Apollo. Os russos se aperceberam desse fato mais rapidamente que os americanos, e aposentaram seus próprios ônibus espaciais logo após a primeira missão, realizada sem tripulação, em 1988. Mas os ianques persistiram. Conseguiram aumentar o ritmo de vôos e estavam fazendo, em média, seis lançamentos anuais, quando então veio a fatídica missão do Columbia.

    Mais uma investigação, mais uma tonelada de dinheiro, e cá estamos nós, de novo, com vôos espaciais ainda mais caros do que antes. A essa altura, está mais do que provado de que essa mentalidade só leva a aumento gradual de custos, não redução.

    A solução? Começar de novo. Do zero. E com uma outra mentalidade. Não uma que tente eliminar os riscos, mas uma que encoraje-os! Foi assim que o avião se tornou a máquina extraordinária que é -- a partir da abnegação de corajosos inventores, homens que não hesitavam em colocar sua vida em risco para aperfeiçoar seus aparelhos. E é assim que a espaçonave do futuro será feita. Ou, pelo menos, é no que acreditam o legendário engenheiro aeroespacial Burt Rutan e a equipe da Scaled Composites, companhia vitimada pelo acidente do último dia 26.

    Não que eles sejam uns cientistas malucos misturando compostos voláteis num tubo de ensaio para obter o combustível do futuro. Eles não querem morrer. Mas aceitam apostar suas vidas num projeto que acham que vá se tornar, no fim das contas, mais seguro que o "vaso Ming voador" que os americanos chamam de ônibus espacial.

    A equipe já mostrou as garras em tempos recentes. Em outubro de 2004, com sua SpaceShipOne ("EspaçoNaveUm"), o grupo venceu o Prêmio X Ansari, no valor de US$ 10 milhões. Ele seria dado à primeira nave reutilizável que conseguisse atingir altitude de 100 km (limite "oficial" do espaço) em dois vôos, separados por no máximo 15 dias.

    O sucesso encorajou o magnata britânico Richard Branson a criar uma companhia de turismo espacial, a Virgin Galactic. Ele contratou a Scaled Composites para que servisse de construtora de naves para a "espaçolinha", desenvolvendo um veículo maior que o SpaceShipOne, de forma que fosse possível levar mais gente a bordo.

    Foi justamente num teste do motor-foguete da futura SpaceShipTwo, na sede da Scaled no deserto de Mojave, na Califórnia, que o acidente fatal aconteceu.

    A perda desses três engenheiros, antes mesmo que o segundo veículo estivesse pronto para voar, é um sinal de que esse esforço de baratear -- e finalmente conquistar -- a fronteira final também vai fracassar?

    O Mensageiro Sideral está convicto de que é justamente o contrário. O fato de que a imprensa não assediou a turma da Scaled como teria assediado os gerentes da Nasa demonstra cabalmente porque o esforço terá sucesso: porque eles têm o direito, como instituição privada, de tentar quebrar as barreiras, desafiar as probabilidades e desenvolver soluções mais arriscadas (e engenhosas) para o problema do vôo espacial.

    Se houver um meio de desenvolver naves que um dia levarão pessoas como eu e você (presumo que você também não tenha várias dezenas de milhões de dólares para pagar aos russos por uma cadeira na Soyuz), serão pessoas como Rutan e sua equipe que as criarão.

    E para quem resolver pensar que a turma da Scaled desanimou depois de enfrentar tamanha adversidade, a companhia manda um recado, em nota publicada em 3 de agosto. "Nós nunca esqueceremos nossos heróis caídos. Agora, quando olharmos para cima, não será simplesmente para o céu negro do espaço, mas na direção dos sonhos que nossos amigos tinham para o futuro."

    Sonhos e futuro são definitivamente duas coisas que não nos faltam. Enquanto houver gente olhando na direção deles, a humanidade estará no caminho certo.

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Mensageiro Sideral

O Universo, com seus 13,7 bilhões de anos e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas, tem infindáveis histórias a serem contadas. Aqui exploraremos uma pequena amostra. Meu nome é Salvador Nogueira. Sou jornalista científico desde 2000, editor de Ciência e Saúde do G1 e autor dos livros "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço" e "Conexão Wright-Santos-Dumont: A Verdadeira História da Invenção do Avião".






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