Era uma fria madrugada. Dia 28 de março de 2006. Tivemos de acordar antes do nascer do Sol, para acompanhar uma cena fascinante. Puxado por uma locomotiva, o imenso foguete deixava o prédio onde havia sido montado e iniciava sua longa jornada até a plataforma de lançamento. O cenário era a longínqua base de Baikonur, no Cazaquistão.
Os jornalistas se amontoavam ao lado da saída do hangar, para seguir a lenta saída do portentoso veículo. Ele ainda teria alguns quilômetros (leia-se algumas horas) para percorrer até chegar ao ponto de onde rumaria para o espaço. O vídeo abaixo não faz justiça ao momento, ainda que seja o único registro visual que fiz daquela ocasião.
Enquanto a coisa toda se desenrolava, um pensamento não saída da minha cabeça: eu estava assistindo à História -- com agá maiúsculo --, se desenrolando bem diante dos meus olhos. Para nós, brasileiros, era um momento especial. A preparação para a primeira viagem de um compatriota ao espaço. Mas confesso que nunca consegui realmente ver a exploração espacial como algo ligado a realizações nacionais. Para mim, explorar o espaço tem a ver com realizações humanas. E o que realmente vinha à minha mente naquele instante era que aquela cena da qual eu era testemunha na verdade reproduzia, nos mínimos detalhes, um ritual que acontecia há décadas, e que marcou o início do que se convencionou chamar de Era Espacial.
Ou você acha que, quando o foguete que encerrava a nave de Yuri Gagarin foi transportado até a plataforma de lançamento, foi alguma coisa diferente? Na-na-ni-na-não. E os russos fazem questão de que seja exatamente igual. Até o costume de transportar o foguete de madrugada, na calada da noite, tinha uma pitada de História: era feito assim para que os americanos tivessem menos chance de identificar qualquer transporte de foguete para a plataforma, o que os tornaria capazes de prever um lançamento iminente.
Também foi assim no momento em que foi levado ao launch pad o lançador que impulsionaria o Sputnik ao espaço. O primeiro satélite artificial da Terra. A primeira jornada de um objeto feito pelo ser humano e por ele liberto dos grilhões da gravidade terrestre. Dali em diante, o céu seria literalmente o limite.
Em menos de sete dias, completar-se-á o 50º aniversário desta pioneira missão, que iniciou a alucinada corrida espacial e colocou o homem diante de uma nova perspectiva a respeito de si mesmo, seu mundo e seus limites.
Sinto-me privilegiado de ter podido ver de perto, em meio ao deserto do Cazaquistão, na base de Baikonur, o cenário onde tudo começou.
Desnecessário dizer que, para o Mensageiro Sideral, essa experiência foi muito mais visceral, emotiva, do que mera observação de curiosidade ou apreço científico. Cabe lembrar que o Sputnik não era, por si só, muito impressionante (como se pode ver na imagem ao lado, que mostra uma réplica do dito cujo, colocada num museuzinho local dentro do cosmódromo de Baikonur). O que ele tinha mesmo de especial era o fato de que envolvia, em sua pequena esfera metálica, os velhos sonhos de liberdade da humanidade.
Ironicamente, ele foi produzido por um dos governos mais severos e opressores que já surgiram em nosso planeta. Uma mostra de como o destino aprecia uma bela ironia.
E o dono da ironia, neste caso, foi Sergei Pavlovich Korolev. Se sua biografia fosse colocada numa nota de rodapé, seria singela. Algo como: "idealizador do primeiro míssil balístico intercontinental, o R-7, e promotor das primeiras missões do programa espacial da antiga União Soviética, como o lançamento do primeiro satélite artificial e do primeiro ser humano à órbita terrestre".
Mas ele merece pelo menos mais alguns parágrafos. Korolev era um sonhador. Havia bebido em diversas fontes para criar seu sonho. A principal delas, os escritos de Konstantin Tsiolkovsky, o professor auto-didata da Rússia czarista que, antes que alguém tivesse inventado o avião, já estava lançando as bases teóricas para a construção de foguetes que levariam a humanidade ao espaço.
Korolev realizou o sonho de Tsiolkovsky, mas não sem muito sofrimento. Durante o governo do ditador Joseph Stalin, chegou a ser preso e enviado a um gulag -- campo de trabalhos forçados estabelecido na época mais opressiva da União Soviética. Sofreu muito. Perdeu todos os dentes. Mas jamais a esperança.
E voltou -- para trabalhar para o governo soviético num projeto da maior importância. Como surrar os Estados Unidos a meio mundo de distância? Como os V-2 do alemão Wernher von Braun já haviam sugerido na Segunda Guerra Mundial, a resposta estava nos foguetes.
Todo o trabalho de Korolev nasceu como um esforço para a criação de mísseis balísticos. De forma inteligente, ele conseguiu convencer o ditador Nikita Khrushchev de que o lançamento de satélites e pessoas ao espaço, além de ser um potencial uso para os mísseis, em nada atrapalharia seu desenvolvimento e promoveria a imagem soviética de potência tecnológica.
O governo em si não se importou muito -- Korolev podia fazer o que bem entendesse, contanto que não deixasse de entregar os mísseis encomendados. E foi meio assim que nasceu o Sputnik. Claro, só ele. Porque, depois que os comunistas perceberam a repercussão que o lançamento havia tido no Ocidente, não hesitaram um minuto em ligar para Korolev e dizer que o show tinha de continuar.
Foi assim que o homem deixou de ser um cientista bélico para ser um cientista espacial. E Korolev continuou nutrindo o sonho. O cosmódromo de Baikonur, de onde partiram tantos lançamentos históricos, foi idealizado por ele. Fascinado com seu próprio trabalho, mandou erigir uma casa para ele na base. Ao lado dela, ficaria a casa do cosmonauta que voaria ao espaço na manhã seguinte. Os dois dormiriam lado a lado, numa demonstração de como aquilo era importante para Korolev.
Gagarin, naturalmente, foi o primeiro a ocupar a casa vizinha, o que fez com que hoje ela tenha uma placa com o seu nome. Ao lado, a casa de Korolev, que ele usou até 1965. Morreria no início do ano seguinte, após uma cirurgia fracassada para extirpar um câncer. Mas o sonho não iria com ele.
Cinqüenta anos depois, a humanidade continua sonhando. Seja de Baikonur, de Cabo Canaveral, de Kourou, de Alcântara, a emoção de poder fazer algo singular, algo extraordinário, de viver o sonho, prevalece.
No meio do continente asiático, cinco décadas atrás, a humanidade começava a trilhar os caminhos do futuro.
O Universo, com seus 13,7 bilhões de anos e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas, tem infindáveis histórias a serem contadas. Aqui exploraremos uma pequena amostra. Meu nome é Salvador Nogueira. Sou jornalista científico desde 2000, editor de Ciência e Saúde do G1 e autor dos livros "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço" e "Conexão Wright-Santos-Dumont: A Verdadeira História da Invenção do Avião".