2117: o ano da grande guerra fiscal
O secretário-geral da ONU não conseguia fazer mais que mover a cabeça negativamente, segurando o cartaz que lhe foi passado.
- 'Apóie o aquecimento global'... - resmungou, citando a frase estampada na peça publicitária. - Essa campanha tem que acabar, Gore, de um jeito ou de outro.
- Ora, Pot, o que você quer que eu faça? O que não é bom para a Terra, neste caso, é bom para Marte, e não podemos voltar atrás - respondeu Timothy Gore Jr., governador-geral das colônias marcianas.
Pot Ton Huan e Tim Gore se esforçavam para encontrar um meio-termo nas discussões, mas isso parecia cada vez mais distante. Por iniciativa de Huan, os dois promoveram uma reunião secreta, tentando desfazer a recente crise diplomática entre os governos terrestres e suas colônias no planeta vermelho. Oficialmente, as Nações Unidas estudavam sanções contra Marte.
- Tim, você sabe que respeito muito o seu trabalho à frente das colônias. Mas não sei se vou conseguir segurar as sanções propostas pelo Conselho de Segurança...
Gore explodiu.
- Sanções?! Que sanções?! Meu Deus, Pot, o que nós fizemos?! Estamos tentando apenas tornar Marte um planeta melhor para se viver. Isso é crime?
Huan pensou um pouco antes de responder. Levantou-se de sua cadeira e aproximou-se do colega, numa esperança de que a proximidade o fizesse enxergar o que seria melhor para todos.
- Por favor, Tim. Caso vocês não se lembrem, vocês ainda são uma colônia! O caminho trilhado agora vai desembocar em algo que eu não gostaria de ver. Não agora.
- Eu sei do que você está falando. Mas não pensamos, nem queremos, independência agora.
- E o que você acha que vai acontecer se o governo marciano continuar usando verbas alocadas pelas Nações Unidas para o desenvolvimento social das colônias para promover essa guerra fiscal? Meu Deus, como você podia não esperar sanções?
- Nós precisamos expandir nossa indústria, Pot. É uma questão de foro ambiental! Você sabe muito bem disso. O esforço de terraformação depende da instalação maciça de fontes emissoras de gases-estufa. E quem vai montar uma fábrica em Marte com os custos exorbitantes do transporte interplanetário? Ninguém. Temos de bancar no mínimo o transporte de pessoal e o escoamento dos produtos. Sem subsídios, a indústria marciana é natimorta.
- Você sabe que eu entendo sua posição, Tim. Poxa, eu mesmo o apoiei para o governo das colônias. Mas o dinheiro que está indo para esses subsídios industriais foi designado pelas nações da Terra como recurso para construir escolas, hospitais! Como você espera que o contribuinte terrestre se sinta, com o imposto dele sendo usado para fomentar o seu próprio desemprego?
- Todo mundo sabe que, na nossa balança comercial, a Terra exporta para Marte muito mais do que importa. E...
- Tim, preste atenção no que vou dizer, porque não é só uma questão de números. Pense, e seja razoável, por favor. Você tem idéia do impacto psicológico que existe toda vez que um pai vai comprar um brinquedinho para seu filho no Dia das Crianças e vê lá, escrito no produto, "Made on Mars"?! Isso está acontecendo cada dia mais, o desemprego começa a aumentar significativamente no mundo industrializado.
- No seu mundo industrializado, Pot. No meu, é justamente o oposto. Estamos pagando o preço de sermos uma civilização multiplanetária. Agora, se a Terra não está pronta para ver isso, Marte não pode fazer nada a respeito.
O secretário-geral da ONU não sabia mais o que dizer. Gore parecia convicto. Mesmo sabendo de toda a dependência que Marte ainda tinha da Terra. E ciente das ameaças de invasão por parte da aliança Estados Unidos-China em caso de não-cumprimento das exigências apresentadas pelas Nações Unidas.
- Tim, escute. Você pode ser o responsável pela primeira guerra interplanetária da história. É isso que você quer? 2117, o ano da primeira guerra interplanetária. Conseguiria viver com isso em sua consciência?
Gore parou por um momento. Seria o caso de voltar atrás? A Terra cumpriria mesmo sua ameaça e atacaria seus próprios colonos em Marte? Deveria ele se curvar diante das exigências de que Marte se mantivesse subserviente, à mercê da economia terráquea?
- Lamento, Pot. A campanha vai continuar. "Apóie o aquecimento global" é o futuro de Marte. E não posso dar as costas para o futuro. Se tivermos de travar uma guerra, que seja. Mas defenderemos a dignidade marciana a todo custo.
- Bem, a escolha é sua. Eu tentei. E não preciso lembrar-lhe de que esta reunião nunca ocorreu, não é?
- Eu tenho palavra. Não se preocupe.
Gore recolheu seu cartaz, guardou-o em sua pasta e se levantou para ir embora. Estendeu a mão para Huan. Os dois homens se cumprimentaram.
O governador marciano já estava na porta quando se virou para Huan, com um leve tremor na voz.
- Pot?
- Sim?
- Os filhos dos seus filhos ainda vão me agradecer por isso.
Gore saiu da sala a passos céleres, e a porta do gabinete de Huan bateu com força atrás de si.