Aposentadoria precoce a caminho de Marte
Imagine projetar um instrumento sofisticado -- uma câmera de alta resolução para tirar fotos de Marte. Então, depois de projetar e provar que pode efetivamente construí-lo, você entra numa concorrência infernal com pesquisadores do país todo para ser um dos escolhidos para uma sonda que vai a Marte. Você ganha a concorrência. Constrói o instrumento. Ele funciona. Aí você o instala na sonda que será despachada para o planeta vermelho. Tudo acontece exatamente como o planejado. E aí, quando a sonda está prestes a chegar a seu destino, os gerentes do programa decidem desligar o seu instrumento e não utilizá-lo.
Frustrante? Pois foi exatamente o que acabou de acontecer com o americano Mike Malin, líder da empresa Malin Space Science Systems e mago das câmeras marcianas. É dele a câmera da gloriosa Mars Global Surveyor, que até o ano passado rendia frutos, após uma década de serviços prestados em órbita de Marte. Também há um instrumento seu no Mars Reconnaissance Orbiter e a câmera agora perdida está neste momento a caminho do planeta vermelho, a bordo da sonda de pouso Phoenix.
O instrumento desperdiçado se chama Mardi, sigla inglesa para Imageador de Descida de Marte. Sua função principal era capturar imagens do solo enquanto a Phoenix fazia a perigosa travessia da atmosfera do planeta vermelho, rumo a uma região nunca antes visitada, próxima ao Pólo Norte marciano. De quebra, o instrumento também continha um microfone, que gravaria os sons da descida. (Ah, nada como uma atmosfera para propagar ruídos!)
"Foi uma decisão difícil, mas para evitar riscos durante a descida vamos desligar a câmera", disse Ramon de Paula, engenheiro brasileiro responsável pela missão no Quartel-General da Nasa, nos Estados Unidos, em conversa com o
Mensageiro Sideral. "Há uma interferência que a câmera pode causar no sistema de navegação, porque ela está ligada no mesmo circuito que o sistema de controle, e a banda larga de dados que ela produz pode causar o problema. Com tudo isso, decidimos desligar. É lógico que o Mike Malin não está muito contente."

A Nasa diz que as imagens que seria produzidas pelo Mardi durante a descida da Phoenix podem ser parcialmente substituídas pelas sensacionais fotos em alta resolução produzidas pelo Mars Reconnaissance Orbiter. Isso é, na melhor das hipóteses, uma forçada de barra, como mostra a imagem postada pela equipe de Malin no site da MSSS (veja-a ao lado).
Mas não é nem uma questão de resolução. O que realmente importa, no caso da Mardi, é que o instrumento produziria imagens em tempo real. E essa seria uma espécie de "prova de princípio" para o desenvolvimento de um sistema inteligente embutido nas sondas que permita que elas evitem obstáculos impeditivos ao pouso durante a descida. Trocando em miúdos, um sistema que permitisse à sonda desviar, caso estivesse prestes a cair em cima de um pedregulho enorme.
Como ainda não é possível realizar pousos de precisão em Marte, a única coisa que os cientistas hoje podem fazer para tentar proteger o sucesso da missão é escolher uma área que seja pouco acidentada. Eles saberão que a sonda descerá numa elipse que ocupa alguns quilômetros no território marciano, mas não terão como dizer, de antemão, onde exatamente vai ser o pouso. Isso, lógico, adiciona um risco à missão.
O problema poderia ser evitado se a sonda tivesse um sistema em que fosse tirando fotos durante a descida e pudesse ver onde estava descendo -- decidindo mudar ligeiramente o curso caso visse algum perigo. Só que esse sistema teria de ser todo automatizado, e só há um jeito de testá-lo: usando.
Quando planejavam a missão da Phoenix, os engenheiros concluíram que era menos arriscado deixá-la pousar meio na sorte, como todas as suas predecessoras, do que se arriscar com um sistema inteligente, mas nunca testado, de descida.
Se essa decisão foi sábia, logo saberemos -- o pouso da sonda está marcado para 25 de maio do ano que vem. A última sonda a tentar esse tipo de descida -- a americana Mars Polar Lander, em 1999 -- fracassou. Em compensação, antes dela, tivemos as duas sondas da série Viking, bem-sucedidas.
E o que será de Mike Malin? Bem, o Universo desta vez foi bem rápido ao compensar a perda. A próxima missão marciana da Nasa, o Mars Science Laboratory, tinha também em sua lista de instrumentos uma versão do Mardi. Ela estava muito perto de ser cortada, por conta de estouros no orçamento. Mas agora, com a perda da Mardi na Phoenix, Malin conseguiu costurar as coisas e redirecionar a verba liberada com a "aposentadoria precoce" para fechar o buraco aberto na missão seguinte e garantir que na missão de 2009 haverá um Mardi para tirar fotos durante a descida.
Toma lá, dá cá também funciona nos corredores da Nasa.